Pelamordedeus!

O bordão mais ouvido/falado/escrito/fotografado ultimamente é um bem fofinho, que eu adoro, mas junto com mais amor, por favor, tenhamos mais educação também!
Educação nunca matou ninguém, minha gente, nunca foi sinônimo de ofensa ou chacota, educação em excesso não é motivo de vergonha, mas a falta dela, por menor que seja, devia ser considerada, no mínimo, infração gravíssima.
A história por trás esse pedido foi a seguinte: estava eu num show, Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, Roger Hodgson, sábado à noite, uma delícia de programa. Eis que, assim que as luzes se apagaram, o grupo de três casais ao meu lado (ressaltando que eram casais maduros, mais velhos, nada de adolescentes fanáticos) não parava de cometer uma infração seguida de outra ainda pior.
Vamos lá, eu sei, era um show, eles provavelmente estavam gritando as músicas, animados ou qualquer coisa normal desses eventos, mas NÃO, eles estavam conversando, batendo papo mesmo, e como a música estava alta demais (porque, né?!) eles precisavam gritar. No curto espaço de tempo de três músicas, fiquei sabendo que eles tinham viajado pra Búzios, e nessa viagem um deles caiu da lancha de tão bêbado e torceu o pé. Mas a melhor parte mesmo, foi quando, na estrada voltando pra casa, o pneu de um deles furou, o que fez com que ele batesse no carro da frente resultando num trânsito de quilômetros na volta de um feriado. Isso tudo, meus amigos, durante o show.
Ta achando que acabou por aí? Senta que lá vem história.
Além disso, uma das mulheres resolveu postar um vídeo no facebook, on time, full time, real time. O problema, senhores, é que lá dentro o sinal de internet era péssimo, e pra postar o bendito vídeo, ela levou nada mais nada menos que todo o resto do evento, ou seja, uma hora e meia.
Beleza Marcella, direito dela de postar o que quiser, pára de ver problema onde não existe. Mas ele existe, e estava personificado bem do meu ladinho, porque enquanto não carregava o maldito vídeo, aquele lindo iPhone ficava brilhando com a luz no máximo, e porque? Porque o marido dela reclamou da luz muito forte na cara dele, e a solução? Virar o celular pra minha cara, porque na minha não tem grilo.
Já está satisfeito? Mas se tem uma coisa que eu tenho, é sorte no azar.
Obviamente, cada um estava com um copo de cerveja na mão, e a cada batida de palma, a cada animo exaltado (e eram muitos), vinha tudo pra cima de quem? Yeah baby.
E sabe como tudo isso seria lindamente evitado? Com educação. Com uns socos também, mas sou educada (ta vendo? Educação salvando vidas).
Não é possível que seja tão difícil perceber essas pequenas coisa, que fazem toda diferença.
Educação é básico, galerinha, pois vivemos em sociedade, numa sociedade pensante e evoluída (ainda há controvérsias sobre esse segundo aspecto, mas vida que segue), e muito me espanta a falta de atitudes primárias e necessárias.
A partir do momento que optamos por coabitar com outros seres iguais, aprender, desenvolver e propagar a educação nas suas formais mais simples e também nas mais complexas, é papel e dever de todos nós. E nisso, incluo o “bom dia” do porteiro, do trocador de ônibus ou do gari da sua rua. O “muito obrigada” pro caixa da farmácia, pro entregador de pizza e pra manicure.
Pode parecer besteira, mas já mudou o dia de muita gente segurar a porta pra alguém que ta chegando, ajudar a carregar as compras pra um atolado, dar um sorriso sem motivo ou recompensa, perguntar se está tudo bem com aquela pessoa com quem você só tem papo de elevador, isso também é educação, e se todo mundo soubesse fazer, ninguém precisaria pedir por mais amor, afinal, seria tão mais fácil amar.
E aqui fica meu apelo, no show, no mercado, na padaria, na farmácia, na sua casa, no meio do mato, mais educação, pelamordedeus, na vida.

Obrigada, professor.

Parada na fila da farmácia, eis que alguém me cutuca e quando me viro, uma agradável surpresa: meu professor de português/redação da época de colégio.
Dez anos depois, menos cabelo, menos quilos, mais idade, e ele ainda me reconheceu.
Mais velhinho que antes, me deu um abraço e perguntou como andava minha vida, que rumo tinha tomado e, de repente, outra surpresa:
“Lembra aquele seu caderno de redação que, no final do ano, te pedi que deixasse comigo de recordação? Pois bem, ainda o tenho, e até hoje mostro pros meus alunos no primeiro dia de aula. Já está amarelo, meio capenga, mas guardo com todo cuidado. Digo a eles que é uma relíquia, e daqui uns tempos vai deixar de ter só valor sentimental porque vai ter sido o primeiro livro de uma grande escritora e, além de ter sido de graça, me foi dado pela própria. Tenho certeza que serve de inspiração pra eles.”

Eu estava boquiaberta, sem reação. Ele continuou:

“Minha querida, nunca deixe isso morrer. Se não for profissional, escreva pra você, para seus amigos e familiares, escreva pra seus filhos e netos. Eles serão eternamente gratos. Você era uma criança e eu já enxergava esse futuro, não te falei explicitamente na época porque você não entenderia, crianças não entendem a dimensão de certos talentos. Mas por sorte do destino te reencontrei numa fila de farmácia e não podia perder a oportunidade.”

Ele pagou e ia saindo:

“Uma última coisa, obrigada por ser meu seu primeiro livro, ainda quando criança, você ganhou seu primeiro fã.”

Virou as costas, e me deixou lá, sem reação, sem conseguir formular uma resposta rápida e eficiente.

Até agora, a única coisa que consigo pensar é: obrigada.
Muito obrigada, professor.
❤️

Assunto do dia: vida.

Estava eu, sentada esperando a aula começar, estabelecendo um prazo de dez minutos para a professora chegar ou iria embora feliz da vida, quando começo a ouvir um bafafá de mulheres discutindo loucamente, porém sérias, todas ao mesmo tempo, claro.
Mais um dia típico na faculdade de direito, mais uma cena típica de mulheres reunidas.
Eis que uma levanta a seguinte questão: “eu quero ter filhos, cuidar da minha casa, dar a atenção que a minha família merece e não depender exclusivamente de empregada, babá e motorista pra tudo dar certo. Isso pra mim é felicidade”.
Comecei a prestar atenção.
E me perguntei, o que é felicidade pras mulheres de hoje?
Obviamente esse conluio de mulheres não chegou a qualquer conclusão. Nem eu, ou me prolongaria muito por aqui, e o que ouvi em seguida tem mais relevância que os meus devaneios.
Voltei minha atenção para o tribunal da inquisição que se formava quando uma delas, que permaneceu de ouvinte o tempo todo, foi militarmente repreendida por lançar a seguinte bomba: “Eu quero ser juíza. E pronto, isso pra mim, é o mais importante. Não faço questão de filho nem marido, não sou fã de viagens, eventos sociais ou qualquer outra ocasião que me obrigue a rir quando não tenho vontade. Esse negócio de agradar aos outros não é comigo”.

Enquanto mulher, posso afirmar, raramente alguma situação consegue nos fazer calar a boca durante uma boa discussão. E, nesse caso, foi unânime, silencio absoluto.
As outras a encaravam como se ela fosse um E.T., uma sequestradora de crianças ou estripadora de velhinhas.
Engana-se quem pensa que o problema foi ela querer o “Não” quando a regra é querer o “Sim”, preferir o cachorro moribundo quando todos se derretem pelos filhotes, eleger o patinho feio para o papel principal, fazendo dos outros meros figurantes.
Ela foi tida como a pior das criaturas pelo simples falo de, não só pensar diferente, mas por tornar isso público.
Afinal, ela pode até abominar crianças, ter alergia à aliança, não saber se relacionar de maneira afetiva ou, pior de tudo (minha humilde opinião), não gostar de viajar, mas daí a FALAR em alto e bom som, sem rodeios, está indo longe demais, querida.
O momento “À defesa da hipocrisia” durou tanto tempo que a professora chegou, extrapolado meu prazo de dez minutos, elas continuavam atônitas, e o robô em questão (como foi carinhosamente apelidada pelas amigas), continuou lendo seu resumo de direito tributário.
Porque? O objetivo dela era outro, ela queria uma coisa, e isso não incluía agradar às amigas, à vontade da sua mãe de ser avó ou da sua irmã de ser madrinha de casamento.
Eu? Bem, a professora chegou, e apesar de querer ser astronauta, bailarina, andarilha, médica ou talvez, física, tenho uma faculdade de direito pra terminar.
Por um mundo com mais “robôs”, que não se intimidam com convenções pré-estabelecidas pela maioria.
E nisso, me incluo sem pensar duas vezes.
🎈

O dia que resolvi pedir por um emprego… Assim:

“Confesso que o visual ajuda.
Escrevo esse email das areias da praia de Ipanema. Nada mais carioca, e poucas coisas traduziriam de maneira mais fiel a minha pessoa.
Mas como isso não se faz suficiente, me inspirarei nos dois irmãos, no arpoador e nas águas dignas do Caribe para, quem sabe, te convencer a ler esse email até o final.

Quebrei todas as regras de como entrar em contato procurando uma oportunidade de emprego e, pode acreditar, já fiz isso muitas vezes.
A questão é: nos lugares errados. Chegou a hora de trabalhar não só por dinheiro, mas também por prazer e, por isso, estou aqui.

Primeiramente, sou carioca, 25 anos, e quase me formando em direito. CALMA! Por favor, continue comigo, me deixe ao menos tentar te mostrar que, apesar desse detalhe, ainda sou uma pessoa legal, animada, apaixonada por viagens, música, cores, fotografia, flores e moda, daquele tipo que passa longe dos escritórios e tribunais.
É verdade, eu sei, pessoas que fazem direito, em sua maioria, são sérias, cinzas e donas da verdade. E é exatamente por isso que esse curso não é muito a minha cara.
Estou terminando a faculdade, mas não quero, e foi (muito) difícil assumir isso, trabalhar na área. É normal, sempre que descobrem o curso que faço, as pessoas me olharem com espanto e, depois de alguma intimidade, perguntarem: “Porque você escolheu direito? Não combina nem um pouquinho com seu jeito”.
Em sua grande maioria, é verdade, não dá match, eu e o direito só temos algumas coisas em comum, são elas: o amor pela leitura e pela escrita, o gosto por uma boa discussão (mas prefiro as mesas de bar aos tribunais), e a vontade de conhecer e saber usar meus direitos como ser humano, inclusive, esta ultima acho fundamental para todo e qualquer cidadão, só assim conseguiremos evoluir como um todo, como sociedade, visando o coletivo, não apenas cada um o seu umbigo.

Pois é, também tenho mania de não ser sucinta, como já percebeu (graças ao direito, mais uma vez).
Tudo isso, pra fazer um único pedido: uma oportunidade de fazer parte de um universo que eu, enquanto estudante de direito, sou sempre rechaçada. Uma oportunidade de lidar com viagem, música, arte, moda e fotografia, e poder fazer disso mais do que o passatempo preferido, mas uma profissão, uma vida.
Eu “só” quero essa oportunidade. A oportunidade de lidar com pessoas.

Pode parecer absurdo, mas até hoje, de todos os trabalhos que já tive, o que me dava mais prazer e me deixava feliz durante oito horas ou mais, sempre em pé, andando de um lado para o outro, foi de garçonete numa rede de restaurantes bem famosa.
Ta vendo, rapaz, felicidade é um treco bem esquisito, né não?

Posso ser tudo, do que você precisar ao que você não suportar.
Desde escrever à fotografar, desde organizar à planejar, desde elaborar à inovar.
A única coisa que eu quero, é uma chance. De que? Aí você já está perguntando demais. Como responder o que eu mesmo desconheço?
Mas por mais estranho que seja esse jeito de pedir (ou implorar), não encontrei maneira melhor, afinal, tradicionalismo está em falta por aqui.

Por fim, se você chegou até aqui, alguma coisa eu escrevi que te agradou, e por isso, já fico feliz.

Obrigada pela paciência, e se algo te interessou, não hesite em entrar em contato, seja num mergulho na praia ou num esbarrão no calçadão, mas se você não me reconhecer em meio à multidão, pode me mandar um email, ou whatsapp, porque quando é pra acontecer, o céu é o limite.

Beijinhos!”🎈

Wake me up when September ends.

Setembro é a sensação de descida da montanha russa. É orquídea que renasce na sua casa quando você já tinha se esquecido o quão delicados os pequenos gestos podem ser. Setembro é cor onde os olhos alcançam, é temperatura certa, é uma luz que não precisa de filtro. Setembro é flor no alto aqui e folha no chão lá. É nascer e morrer pra reviver.

Setembro é dos virginianos, essa turma que veio ao mundo para organizar o caos, dividir as gavetas de roupas por cor, essa gente que impõe senso crítico num mundo acéfalo e que luta pela perfeição, custe o que custar. Setembro é o momento de separar o joio do trigo, de colher uva para preparar o champagne, é hora de comemorar a independência de um Brasil dependente e de relembrar o dia que mudou o mundo pós-contemporâneo e semi-apocalíptico.

Setembro é tudo isso e tantos mais. Mas ainda assim é só um mês. Não vai ser setembro, nem janeiro, nem a noite de Réveillon. Vai ser você. Dê boas vindas a você, a um novo pensamento, a uma nova vontade. Não crie expectativas para um mês que só tem a função de encher um calendário.

No fim das contas, o que importa é saber se setembro chove.
☂ ☼ ♡

Obrigada.

Deve ser incrível você depender da generosidade e das boas intenções de quase todo mundo, quase o tempo todo.
Hoje vi uma cena que me deixou arrepiada.
Estava sentada num banco de uma galeria lendo, quando uma moça nova, bonita e muito simpática parou do meu lado. De repente senti alguma coisa batendo nas minhas pernas e só então olhei pra ela, que estava parada em pé mexendo no celular.
Percebi que era cega.
Perguntei se queria sentar, ela abriu um sorriso e disse: “me mostra onde tem um espacinho?”
Começamos a conversar e ela contou que estava esperando uma amiga com a filha, que era sua afilhada.
Quando a menina chegou, abraçou ela por trás e falou:
“Dinda! Que saudades! Olha quem eu trouxe pra você conhecer, a Lara, minha boneca nova! Vou descrever pra você: ela é um bebê lindo, meio branca meio rosa, tem olhos pretos, assim, iguais aos seus, e cabelo enrolado assim, igual o meu. Ela podia ser nossa filha dinda!”

A dinda gargalhou e abraçou a boneca, a criança riu e perguntou:
“Dinda, ela é sua amiga?”
(apontando pra mim)

E ela respondeu:
“É sim, Lulu, é daquelas amigas que a dinda faz sempre que sai de casa. E que sempre agradece no final do dia, lembra que já te contei isso?”

“Lembro…”
E olhando pra mim:
“Obrigada por ajudar minha dinda, ela não enxerga, mas o coração dela sim!”

Aham, depois de um furo, um trote e de andar um tanto na chuva, meu dia começou cheio de alegria com uma criança livre de preconceitos e com alguém que conta sempre com o melhor de qualquer ser humano.

Obrigada Lulu. E obrigada Dinda da Lulu. ❤️

Sério?

Eu não quero estar em um relacionamento sério. Nunca. Nem hoje, nem semana que vem, nem em dez anos. Nem se eu estiver estabilizada na vida, nem se eu estiver carente e sozinha, nem se o homem mais interessante do mundo aparecer. Aliás, principalmente se o homem mais interessante do mundo aparecer.
Sério é o meu relacionamento com meu porteiro, e olhe lá. Volta e meia conversamos sobre algum assunto que nos faz rir. Só quero ter relacionamentos sérios com quem não gosto. Com o mal educado da fila do mercado, a moça que não segurou a porta do elevador pra uma velhinha na minha frente, o infeliz que não limpa o cocô (tem acento ainda?) do cachorro da calçada…
Com quem eu gosto, quero ter relacionamentos leves, divertidos, coloridos.
Relacionamentos que acrescentem sem pesar, porque de pesada já basta minha bolsa. Relacionamentos que não façam cobranças, porque eu quero me doar por vontade própria. Relacionamentos leves, que respeitem a identidade individual, que não tentem nos tornar um só, com os mesmos gostos, as mesmas vontades, as mesmas neuras. Ao contrário, que nos ensinem a gostar de coisas novas, a pensar diferente, abrir a cabeça, a entender que essa história de metade da laranja não funciona nem pro próprio Fábio Jr (tá casado com quem agora, mesmo?).

Ok, “relacionamento sério” é só um título, uma maneira de chamar. Mas em alemão, por exemplo, esse termo é substituído por “está apaixonado por”. Muito mais querido, não?

Mais do que o botão de dislike, acho que está faltando nas redes sociais outras maneiras de descrever o amor. Sério não é uma palavra que faça jus à grandeza desse sentimento. Não é um relacionamento enrolado, não é um relacionamento aberto. É um relacionamento livre, em que ambas as partes escolheram estar, não por carência ou comodismo. Não porque não-tem-tu-vai-tu-mesmo, mas porque foi uma escolha entre estar feliz solteiro ou estar mais feliz ainda com essa pessoa. É um relacionamento leve, porque os dois têm consciência de que estão juntos porque querem, e sabem que ninguém é obrigado a levar isso adiante se não se sentir valorizado, amado e feliz. É um relacionamento dinâmico, porque permite o crescimento mútuo e entende que vamos passando por fases ao longo da vida, mas que alguma coisa deve se manter desde a origem, e é o que os fará permanecer unidos, mesmo que não sejam mais como eram quando se conheceram. É um relacionamento divertido, porque te dá liberdade de rir sem culpa, viver sem pudores, virar criança em alguns momentos e reinventar o kama sutra em outros.
Ao invés de o facebook investir em tantas mudanças de layout e outras bobagens, bem que Mark e sua turma podiam ampliar o leque de status afetivos, né? Talvez se existissem mais maneiras de definir os relacionamentos nas redes sociais as pessoas acabariam se questionando que tipo de relacionamento elas de fato têm.
Por mais boba que seja a pergunta, acredito que entre “estar em um relacionamento sério” ou “estar em um relacionamento divertido”, a maioria das pessoas optaria pelo segundo. Pelo menos para manter o status.
❤️

Ninguém sabe.

Eu sei que ele sorri sozinho quando recebe uma mensagem minha, eu sei que ele sente meu cheiro quando anda distraído pela rua, eu sei que ele ouve aquela música e sente vontade de me mandar uma mensagem só pra dizer que lembrou de mim, eu sei que depois de muito tempo sem falar comigo, ele inventa qualquer desculpa só pra saber se eu estou bem, eu sei que toda aquela implicância, tem um só motivo, eu sei que ele já teve muitos amores, mas o que ele sente por mim é diferente de tudo isso, de repente nem é amor, só se sabe que dá frio na barriga, dá vontade de abraçar até esmagar, dá vontade de ver o tempo todo, dá vontade de estar o tempo todo, dá vontade de sentir o tempo todo, bem pertinho.
Eu sei que ele não sabe o que é, mas ele gosta de sentir. Eu sei que ele tem medo disso não passar de um sonho bom, eu sei que ele conversa mais comigo do que com alguns amigos antigos, eu sei que ele me conta mais coisas do que gostaria, mas quando percebe, já falou. Eu sei que na hora de dormir, tudo que ele queria era um beijo no pescoço e um boa noite ao pé do ouvido.
Eu sei que ele sente falta.
Aconteceu, eram dois estranhos, que se cruzaram por um acaso do destino, e se apaixonaram por palavras, por atenção, por carinho falado e escrito, por companhia, se apaixonaram um pelo outro.
De repente nem é amor, mas o nome disso, ninguém descobriu ainda.

E se?

E se toda sexta, fosse dia de feira. E se toda segunda fosse feriado, e todo domingo, chuvoso. E se o final de semana durasse cinco dias. E se as férias durassem seis meses. E se todo trabalho fosse diversão.
E se todo sorriso fosse visto e todo olhar retribuído. E se cada palavra fosse pensada, e todo impulso, certeiro. E se cada sussurro arrepiasse, e todo toque comprometesse.
E se o “eu e você”, fosse “nós”. E se todo abraço fosse apertado. E se todo carinho fosse de verdade. E se cada caminho fosse um final feliz. E se todo ponto não fosse final. E se cada virgula fosse um suspiro. E se toda panela tivesse sua tampa, e cada pé descalço encontrasse seu sapato velho. E se o final feliz fosse obrigatório.
E se toda fome fosse de atenção, e toda sede de paixão. E se ladrão, fosse só de corações.
E se toda mãe fosse vidente. E se todo filho não fosse único. E se toda criança fosse fonte de amor. E se todo amor fosse correspondido. E se uma esperança não fosse possível de ser quebrada.
E se toda nuvem fosse de algodão. E se toda piscina fosse de suco de uva. E se doce não engordasse, e bala não fizesse mal pros dentes. E se tudo que reluz fosse ouro, e se tudo que é bom fosse de graça.
E se todo fim tivesse um recomeço. E se todo recomeço fosse uma página em branco.
E se passado não fosse coisa de museu. E se toda história tivesse uma segunda chance. E se todo personagem pudesse se reinventar. E se contos de fadas existissem.
E se cada esquina fosse uma viagem. E se cada viagem fosse uma nova vida. E se fotos falassem. E se cada livro lido, fosse uma graduação. E se toda passagem fosse só de ida. E se todo desconhecido fosse seu amigo. E se você pudesse colocar sua vida numa mala.
E se o “pra sempre” fosse verdade. E se toda surpresa, fosse boa.

Marcella Vasconcellos

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Passou.

ImagemEu já me perguntei o que eu estava fazendo da minha vida, já questionei se pro meu problema eu ia encontrar uma saída, se me faltava sorte ou era só a vida distraída. Já olhei pro fundo do poço, lutei para não largar o osso, fiquei tão tenso a ponto de ter que imobilizar o pescoço. Já me desiludi, deixei de acreditar, dormia, acordava e me esquecia de sonhar. Já me envergonhei da descoberta de certos sentimentos, fiquei refém dos mesmos lamentos, me afoguei em uma tormenta de maus pensamentos. Já me vi e não me reconheci, já soltei quando não queria deixar ir, já falei coisas que ninguém merecia ouvir. 

Já fiquei quando deveria fugir, já chorei quando era só questão de sorrir, já errei, acertei e não me arrependi. Já tive preconceito, fiz o que não deveria ser feito, quis que tudo fosse exatamente do meu jeito. Já fui pedante, arrogante, tive opiniões que mudavam a todo instante. Já gostei de quem não devia, já escolhi ser triste e enterrei a alegria, já joguei no lixo dia após dia. Já fui eu de verdade, já fui só a metade, já pensei que era amor quando era só amizade. Já sofri com problema alheio, esqueci do acelerador e insisti no freio, optei pelo óbvio, pelo fácil, pelo caminho do meio. 

Já fui mais azar do que sorte, mais fraco do que forte, menos cicatriz e mais corte. Já deixei de dizer a que vim, de cuidar do que era importante para mim, já ouvi um não quando eu só queria dizer sim. Já me deixei de lado, falei quando devia ter ficado calado, me intrometi onde não tinha sido chamado. Já fiz tudo errado, criei histórias sem o menor cuidado, me prejudiquei e não me senti culpado. Já foi, é passado, não tem mais espaço para me sentir frustrado.