Dez segundos.

Sexta feira, shopping lotado, saída do banheiro.
Me assusta um menino de uns sete anos correndo segurando alguma coisa que escorria água, muita água, nas mãos, e chorando, aos berros.

A mãe dele esperava parada e, mesmo com o desespero do garoto, continuou de braço cruzado fazendo cara de “lá vem mais uma”.

“Mããããe, (soluço, soluço) Meu ce-ce-celular caiu do va-va-va-vaaaso!”

“Eu avisei pra não levar celular pro banheiro, essa mania de ficar jogando até quando não precisa, parece até que tem intestino preso! – pegando, com nojo, o celular – garoto! Você pegou essa bosta dentro de uma privada com mais bosta?!”

“Mããe, agora ele não fun-fun-funciona! Meu pai vai brigar co-co-comigo!”

“Claro que ele não funciona, Tá mergulhado em xixi e sabe-se-lá o que mais né!”

“Mas ma-ma-mãe! Eu usei a regra dos dez segundos que meu irmão me ensinou, não era pra ter que-quebrado!”

“DEZ SEGUNDOS?! Seu irmão te sacaneou e você não percebeu né?! Dez segundos é o que seu pai vai precisar pra acabar com a raça de vocês dois!”

Ah, esses irmãos mais velhos…

Marcella Vasconcellos. 🎈

Brasilidade.

Parada no ponto de ônibus, dois daqueles fiscais de linha sentados numa sombra do meu lado conversando, eis que uma moça nova e bonita vestindo a camisa da seleção brasileira, facilmente confundida com uma passista de escola de samba, se aproxima e, quando vai perguntar alguma coisa, um deles interrompe e brinca:

“Não, não fala comigo vestindo essa camisa que depois da humilhação do 7×1 eu nego minhas origens!”

Ela entra na brincadeira e responde:

“Pois eu não tenho como negar minha brasilidade, meu amor, com essa cor, esse molejo e essa bunda, até mas arábias sabem que eu sou brasileira!”

“E que molejo hein, colega, dá uma voltinha pra gente ver o samba no pé da morena?! Se você tivesse em campo, aqueles cotonete de gigante tinham perdido o rumo e os gols!”

Ela deu a voltinha, sambou sem música, jogou o cabelo, eles aplaudiram e, o ponto de ônibus cheio, babava na morena do 7×1.

Voltaram a ser brasileiros, com muito orgulho, com muito amor.
Alguém duvida?

Marcella Vasconcellos. 🎈

Obrigada, chefe!

Quando seu primeiro chefe te manda a redação do processo seletivo…

“O ponto.
Foi a partir de um ponto estabelecido que o pênalti foi marcado, que a meta foi alcançada, que o sonho virou realidade , e o trabalho foi um sucesso. Com base no ponto, as estrelas tornaram-se foco de estudos milenar e assim descobertas a cerca da origem primitiva vieram à tona. Através do mesmo ponto, uma das maiores teorias da física foi desenvolvida e novas posições continuam surgindo a todo momento.

Entretanto, deve-se lembrar que, para causar tamanho estrago, o cogumelo atômico também precisou de um ponto estabelecido. O tiro que matou o inocente, deixou um ponto em aberto na vida daquele indivíduo. O policial corrupto juntamente com o usuário de drogas, estabeleceram um ponto de mudança não somente para o resto de sua existência, mas para toda sociedade.

Diante desse cenário, podemos concluir que a vida é feita, basicamente, de dois pontos decisivos, atribuídos a várias vertentes, mas em suma, são apenas dois. E, de acordo com os princípios fundamentais que formam um cidadão, devemos fazer nossas escolhas aliando à esses fatores a situação caótica vivia pela sociedade carioca atualmente, é nosso dever não escolher o ponto final, mas o novo ponto de início para, quem sabe, nossos netos desfrutarem de uma cidade muito mais maravilhosa.
Os pontos estão por toda parte, basta querer enxergá-los.”

… E tem uma enorme boa vontade ao falar que você já escrevia bem naquela época, quando foi preciso ler cinco vezes pra continuar fazendo nenhum sentido 90% desse texto.

Mas a parte de guardar de recordação, acertou em cheio, são essas surpresas pela manhã que fazem rir e valer super a pena.

Obrigada, chefe!

Marcella Vasconcellos. 🎈

Capiroto é pros fracos.

Parada no ponto de ônibus:

– Mãããe! Olha o que eu achei!

Um menino de uns nove anos vinha correndo em direção a mãe com dois bonecos de barro, um em cada mão, sacudindo, feliz da vida.

A mãe olha e pergunta:

– Onde você pegou isso? Quem é o dono, filho? Já falei que não pode sair pegando o que não é seu.

– Mãe, não tinha dono, tava jogado ali na árvore, agora é meu!

A mãe olhou pra árvore, tinha um vaso de barro, frango assado, farofa, velas, flores, garrafa de alguma coisa.
Praticamente um altar.

Arregalou um olho enorme, bateu na mão do menino forte o suficiente pra derrubar os bonecos no chão e falou:

– Larga isso a-go-ra! É macumba, menino! Não pode brincar com a fé dos outros, deixa o santo em paz!

Eis que uma senhora, bem senhora mesmo, que também esperava o ônibus, e participava do momento, parou e complementou:

– Filhinho, deixa a vovó te falar uma coisa, se você mexer com o santo dos outros, eles vão ficar muito brabos (fazendo cara de mau) e o Capiroto vai vir puxar o seu pé pra te dar uma lição, não pode tá?”

O garoto, pasmo, olhava pra senhora e pro boneco, alternando, e como num estalo, recuperou a compostura, resgatou os bonecos do chão e finalizou:

– Eu achei, agora é meu! E se o Capiroto puxar meu pé, eu puxo o pinto dele!

Não era meu duende-verde-neon, mas podia ser.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Muito obrigada aos meus necessários.

Em alguns momentos da vida o que não falta é tédio, e como já dizia minha avó: “cabeça vazia, oficina do diabo”.
Em outros, falta tempo até pra respirar, vira e mexe o corpo pede aquela respirada bem dada porque o estoque de oxigênio tá acabando.

E são nessas horas que algumas pessoas se fazem fundamentais.

Fundamentais pra te lembrar que você tem pai, mãe, irmão, amigos e, principalmente, vida social.
Pra mostrar que não é porque você mergulhou de cabeça num novo projeto, e está certíssimo, que o resto do mundo parou de existir. E você continua tendo tempo de mandar aquela mensagem no meio do expediente, só porque seu pensamento fugiu um pouquinho daquela rotina alucinante e resolveu mandar sinal de fumaça.

Fundamentais pra puxar sua orelha e falar que tem muito tempo que você não liga pra vovó nem fala com a Dindinha.

Fundamentais pra te lembrar que você gosta de escrever, correr e ir ao cinema, mas parou de fazer tudo isso sem nem perceber.
Que você está com saudades de sentar num bar-com-as-meninas que não vê há meses.
Ou que você precisa sair e dançar até amanhecer.

Pois é, tem gente que existe pra lembrar das nossas saudades.

Fundamentais pra lembrar de se alimentar direito e marcar o médico.
Fundamentais pra lembrar de ler sua lista de livros, conhecer aquela praia deserta e beber água.

Algumas pessoas são fundamentais pra mostrar que sua vida continua existindo, continua exigindo de você a mesma atenção e dedicação, pra que nada desande.

Fundamentais apenas pra que você continue sendo você.
Algumas pessoas são necessárias para nossa saúde física, mental e emocional.
Simplesmente necessárias.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Gente.

Tem gente que encanta a gente fácil.
Tem gente que engana a gente sorrindo.
Tem gente que está sempre cuidado da gente, mas tem gente que não tá nem aí.
Tem gente falando mal da gente nesse minuto, mas também tem gente sonhando em ter a gente sempre por perto.
Tem gente esperando a gente a vida toda, mas também tem gente rezando pra gente sumir de uma vez por todas.
Tem gente que abraça, e gente que faz carinho.
Tem gente que ama, mas também tem gente carente.
Tem gente que olha pra frente, e tem gente que tem âncora nos pés.
Tem gente que sabe o que quer da vida, mas também tem gente que veio ao mundo a passeio.
Tem gente fria, com coração quente.
Tem gente feia com brilho nos olhos, e gente bonita com medo do espelho.
Tem gente armada até os dentes, e gente que chega com peito aberto.
Tem gente como a gente, e gente que não vale nem um passo à frente.
Tem gente de todos os tipos, todas as cores, tem gente de muito e gente de poucos amores, gente com muitos e gente com poucos valores.
Agora, basta que a gente escolha que tipo de gente a gente quer com a gente.

Marcella Vasconcellos. 🎈

O primeiro de 2015.

Essa semana, passeando pelo Instagram, me deparei com um Chapolin Sincero que dizia: “Sinto te informar, mas você ficou em 2014″.
Como de costume, gargalhei, sempre rio sozinha dessas bobeiras.

Gostaria de deixar em 2014 tudo aquilo que faz mal, atrasa e enrola.
Toda preguiça, inveja e olho gordo.
Vou deixar em 2014 a falta de abraço, carinho e pensamento positivo.
Foi um ótimo ano, e desejo que leve toda fome, infelicidade e pobreza com ele, 2014 vai ficar com os desejos frustrados, os amores não correspondidos e as dores incuráveis.
Um ano de tantas descobertas vai ficar com aquelas promessas não cumpridas, as etapas não vividas e as cicatrizes doloridas.
Quero deixar em 2014 o medo do desconhecido, o pavor de correr atrás da felicidade, a maldita zona de conforto.
Fiquem todos, por favor!

Pra 2015 quero levar as lembranças boas, as memórias inesquecíveis e amores eternos.
A disposição, força de vontade e determinação.
Em 2015 desejo que você corra atrás dos seus sonhos e daquilo que te faz feliz, por isso trago amor, flor e sorriso. E é claro, saúde, muita saúde!
Pra 2015 quero aquela alegria genuína, gargalhada de criança e declarações de amor espontâneas.
Desejo sabedoria e maturidade pra aproveitar cada momento. Comprometimento e grandes idéias também. Mas trago cuidado, com as palavras, atitudes e, principalmente, sentimentos.
Ousadia e cautela, combinação que vai fazer sucesso esse ano. Equilíbrio.
Trago pra 2015 todas as viagens ainda não realizadas, todas as vontades reprimidas, todos os sonhos que alguém um dia julgou impossíveis.

Vários desejos me foram feitos nessa virada de ano, mas o mais bonito deles foi: “te desejo um ano inteiro em branco, só pra você!”

2014 foi e levou tudo que precisava, agora tratemos de preencher 2015 com aquilo que há de melhor: nós mesmos.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Vontades (normais) reprimidas.

Último sábado do ano, trânsito parado na Rio-Santos, a conversa começa:

Gustavo : ai, sabe o que eu e os meninos achamos na floresta atrás de casa? Uma casa abandonada e um poço, igual ao da Samara!

Eu: Samara? Quem é Samara?

G: do filme Marcella! É o poço da Samara porque a mãe dela empurrou ela lá dentro! Nunca viu?

Eu: nossa senhora, que filme ótimo.

G: ai, sabe o que eu tinha muita vontade de fazer?

Eu: lá vem…

G: fazer coco no meio do play e deixar lá, ai no dia seguinte voltar pra ver se tem alguém olhando meu coco, imagina, ia ser iraaaaado!

Eu: sério isso Gustavo? (Incrédula)

Alguns minutos depois, em silêncio após a revelação fatídica da vontade reprimida, a conclusão:

“Marcella, dá pra ver o DNA pelo coco? Não né?”

Duende verde nunca decepcionando.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Lembra?

Memória é igual estilo. Uns tem, outros não. Já dizia a propaganda.

Outro dia conversei com meu pai sobre pessoas que, durante o sono, colocam a mão dentro da calça.
Pois é, temos conversas estranhas.
Eu disse que reparei que muita gente fazia isso, porque a maioria dos mendigos que eu via dormindo na rua, estava com a mão dentro da calça.
Tudo bem, agora a estranha sou eu.
Mas o negócio é: toda vez que vejo um sujeito dormindo na calçada, reparo na mão, e lembro do meu pai nessa conversa sem nexo.

Minha tia foi pra Tailândia e trouxe um incenso de citronela, quando senti o cheiro só conseguia lembrar da casa de praia da minha Dindinha que exalava o mesmo cheiro delicioso.

No final de um dia desses de calor infernal, choveu. E o cheiro de terra molhada da floresta atrás da minha casa, me transportou pra casa de Mangaratiba da minha avó e das inúmeras férias que passei por lá.

Outro dia alguém me perguntou de onde era o brinco que eu usava, respondi sem titubear que ganhei da minha tia que trouxe do Vietnã no meu aniversário de 1995.

Em contrapartida, meu pai é um exemplo do outro lado da moeda. Hoje no café da manhã minha mãe falava que alguém cortou o bolo todo errado, por isso ele não cabia no pote.
Quando falei “só podia ter sido meu pai!” Ele me olhou com a maior cara de espanto do mundo, como se eu tivesse acabado de cometer uma grande injustiça, e falou: “claro que não, eu nem estava em casa!”.
Ele estava, ele fez o café pra comer com bolo, ele partiu tudo errado.
Eu, minha mãe e meu irmão nos olhamos, foi o suficiente.

Tem também quando ele fala alguma coisa, depois muda de ideia e jura de pés juntos, chega a brigar com quem quer que seja que NUNCA falou aquilo, nós é que estamos loucas!
Eu, minha mãe e meu irmão nos olhamos, é o suficiente.

Uma situação muito boa é quando um conhecido aborda ele na rua, chama pelo nome (que não é dos mais comuns), conversa, pergunta da família, do trabalho, se despede falando que tava com saudades, e quando pergunto quem era, ele responde: “não faço a menor ideia, deve ter me confundido com alguém!”
Claro.

Pra finalizar, porque a lista é muito grande. Há pouco tempo ele estava no telefone falando com algum conhecido distante, eis que eu ouço: “É, Marcella tá grande, tá com 22 anos já!”.

Ele mora comigo, ele me viu nascer e estava presente em todos os meus aniversários, contabilizando 26 primaveras.

Sendo assim, me despeço com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, não serei mais Marcella pra ele. E sem poder culpar a medicina por alguma cura que eles não descobriram.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Amorholic.

Parada na plataforma do metrô, Rio de Janeiro, muito calor, segunda feira.

Do meu lado estacionou um carrinho de bebê, empurrado por um vovô muito fofinho, acompanhado da mãe da criança.
Depois de fazer o bebê gargalhar, a mãe falou:

“É filho, faz tempo que a mamãe não assiste novela nem jornal, só dá galinha pintadinha e Pepa lá em casa.”

E o vovô-fofo complementa:

“É verdade, acho aquela Pepa um barato!”

“Mas tudo bem, filho, por você, tudo vale a pena!”

Quando ela falou isso, olhei pra eles e sorri involuntariamente. Espero que esse bebê um dia compreenda o sentido dessas palavras.

Reparei na blusa que o vovô usava, estava escrito “Eu sou amorholic”!

Ah, meu senhor, disso eu não tenho dúvida! Só gostaria de saber como faço pra entrar no seu clube?

Marcella Vasconcellos. 🎈