Amorholic.

Parada na plataforma do metrô, Rio de Janeiro, muito calor, segunda feira.

Do meu lado estacionou um carrinho de bebê, empurrado por um vovô muito fofinho, acompanhado da mãe da criança.
Depois de fazer o bebê gargalhar, a mãe falou:

“É filho, faz tempo que a mamãe não assiste novela nem jornal, só dá galinha pintadinha e Pepa lá em casa.”

E o vovô-fofo complementa:

“É verdade, acho aquela Pepa um barato!”

“Mas tudo bem, filho, por você, tudo vale a pena!”

Quando ela falou isso, olhei pra eles e sorri involuntariamente. Espero que esse bebê um dia compreenda o sentido dessas palavras.

Reparei na blusa que o vovô usava, estava escrito “Eu sou amorholic”!

Ah, meu senhor, disso eu não tenho dúvida! Só gostaria de saber como faço pra entrar no seu clube?

Marcella Vasconcellos. 🎈

Duende-verde-neon.

Irmão mais novo é quase como um duende. E quando a diferença é de onze anos, aí é um duende-verde-neon.
Eu tenho um, temporão, susto, acidente, erro de percurso.
Irmão mais novo é especial, todo mundo sabe disso.

Especialmente chato, implicante e super favorecido. Especialmente mimado, mas segue o fluxo, quase nada é só pra ele, na maioria das vezes é consequência ou herança. Especialmente esperto, porque se souber aproveitar, sempre se dá bem.

Irmão mais novo não tem ciúme porque já nasceu sabendo dividir, e aprendeu rápido a ter alguém pra ajudar, muito diferente (e melhor) de pai e mãe. Tem sempre um mais velho de exemplo, o que pode gerar uma relação de amor ou ódio.

Por dez anos eu pedi, todo aniversário, Natal, dia das crianças, além de um cachorro (que peço até hoje), um irmão caçula. Ao contrário da maioria das crianças, eu não queria meus pais só pra mim. Confesso que depois que ele se materializou, aquela ideia de que eu teria uma boneca humana particular foi pelo ralo.

Mesmo assim, aquele era o mini ser humano pelo qual eu esperei anos, e quando soube da notícia, fiquei sem palavras, só conseguindo abraçar o umbigo da minha mãe que, daquele momento em diante, se resumiu a uma barriga.

O mais engraçado é que o tempo passa voando, eles crescem, nós também, mas aceitar isso é difícil. Não a nossa velhice, a deles.

Meu irmão pedia pra dormir no meu quarto mesmo sem motivo aparente, esperávamos nossos pais viajarem pra dormirmos juntos no quarto deles e ficarmos até tarde vendo TV, o que era estritamente proibido. Quando eles iam ao cinema, ele vinha correndo na minha porta gritar “festaaaa!” mesmo que isso significasse pipoca e colchão na sala.

Me chamava de “Rimã” e a primeira vez dele no teatro, foi comigo. Já fiquei com ele no colo, esperando o sono chegar enquanto ninguém mais conseguia, e ele dormiu. Levei pra passear de carrinho na pracinha, dei água de coco na mamadeira, fui na formatura da creche, tenho mil fotos dele bebê.

Hoje ele pede opinião de roupa pra festa e detesta todas as minhas sugestões, pede dica de presente pra namorada, peraí, hoje ele TEM namorada(s).
Hoje ele acha que é o dono da razão, pede ajuda pra estudar história e tenho que ouvir ele xingando a professora que deu a “matéria toda errada”. E eu me preocupo com nota de prova, recuperação, aula particular e o porque dele não ter chegado até essa hora em casa?

Hoje ele não acha mais tão legal ficar sozinho comigo em casa, porque o vídeo game é muito mais interessante que a “festaaa!”. Ele reclama de sair com a gente, diz que é um saco almoço em família.

Todo mundo diz que é fase, que passa, vai melhorar.
Eu queria mesmo é que voltasse, no tempo que ele era o bebê da casa, dormia na sala pra não acordar todo mundo e mesmo assim vivia sorrindo e distribuindo beijos pra quem passasse na rua.

Mas já que não é possível, aguentemos essa maldita adolescência masculina, abstraindo toda chatice, porque se fosse pra voltar lá atrás, e implorar por mais dez anos, não pediria contratempo diferente.
Depois desse susto, nossa família nunca mais foi a mesma, hoje ela é muito melhor.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Mãe? É você?

“Tudo que é bom dura pouco”, o ditado mudou, a versão moderna é: tudo que é bom, contém glúten.

Pois é, nessa era de glúten incha, lactose engorda e açúcar piora celulite, não só a alimentação sofreu grandes mudanças, mas também as citações mais clássicas. E porque não, minha mãe?
Exato, dona Claudia, como muitos sabem, é linda, magra e cheia de charme.
Mas os aniversários vão chegando com frequência maior que o psicológico aguenta e, com eles, a maldita menopausa.

E ai, meus amigos, são calores repentinos, mudanças bruscas de humor, reclamações acerca da pele, do cabelo e, claro, da balança.

A senhora minha mãe sempre foi magra de ruim, daquele tipo que faz cinco refeições por dia e belisca bastante nas horas vagas, come de tudo, porém magra. Sempre detestou academia e qualquer movimento que a obrigasse a colocar um tênis e sair de casa pra suar, e por isso, nunca fez nada, porém magra.
Acontece, Deus não dá asas à cobra.

Voltando ao ponto, depois de ultrapassada a faixa dos cinquenta, ela encrencou com o tamanho da circunferência que, na minha opinião, pode ser comparada à de um miquinho filhote, mas mulher quando quer, nem o Papa muda a ideia fixa.

Sendo assim, a moda do momento (e lá em casa) é a dieta do glúten, ou como já ouvi por aí, do glúteo.
É pão sem glúten, bolo sem glúten, farinha de arroz, polvilho, pão de queijo pode (vitória!), arroz também, tudo na base do inhame e do aipim, sem falar na overdose de tapioca, uma loucura.
A parte ruim? Ela tá adorando.
Aham, minha mãe-magra-de-ruim esfrega na cara dos meros mortais (eu) que, além de tudo, gosta dessa dieta moderna e não sente nenhuma falta de enfiar o pé na jaca.
Morar na mesma casa que ela é ter minha consciência gritando a cada pãozinho francês quentinho que penso em comer.
Vida que segue.

Outro dia, mandei um whatsapp pra ela falando de uma entrevista de emprego, eis a resposta: DAIMOCO DAIMOCO DAIMOCO.

Exatamente assim, três vezes, maiúscula, sem sentido.
Como não é tão anormal receber dela mensagens codificadas/criptografadas, ignorei e pensei: deve ter tentado escrever “boa sorte, duduca!”, super tranquilo, não estranharia nada.

No dia seguinte, durante o almoço, ela recitou a mesma sequência: DAIMOCO DAIMOCO DAIMOCO.

Ai eu fiquei preocupada, será que deu pane? Depois de uma certa idade já pode ser considerada na faixa de risco? Acendeu a luz de alerta.
Perguntei, com medo da resposta, que diabos era aquilo?

“É uma citação budista filha! Pra atrair coisas positivas. Basicamente, se você pensa de maneira positiva, coisas positivas acontecerão com você!”

Nenhum problema, não fosse o fato da minha mãe ser católica do tipo que vai a igreja toda semana, faz promessa pra santa quando a filha fica doente e comparece todo ano na festa de aniversário da padroeira de Mangaratiba.

Já chega, Menopausa, a dieta do glúten eu aceitei, agora você já está passando dos limites.
Faz favor de devolver minha mãe?

Marcella Vasconcellos. 🎈

Dois pesos, duas medidas.

Tem gente que enche a boca pra falar que “homem nenhum presta!”, pois eu discordo, mesmo sendo mulher e solteira.
O negócio é: homem presta tanto quanto mulher. Só é preciso querer prestar.
Ou vai dizer que a mulherada vale ouro durante toda sua existência? Faz favor, né.

Toda mulher no mundo tem aquela fase casada que só faz programa onde o número de integrantes é par, aquela em que a companhia mais interessante do mundo é o edredom de solteiro numa cama de casal e aquela em que não consegue nem contabilizar quantos nomes (ou números) diferentes usou numa mesma noite.
Se engana quem acha que mulher tenta enxergar em todo e qualquer homem, o príncipe-encantado-amor-da-vida-vamos-casar-amanhã.
Pode ser que hoje ela não consiga nem pensar em encontrar um cara duas vezes seguidas, e daqui dois meses, tudo que ela procure é alguém com intimidade suficiente pra não precisar conversar num sábado a noite. Acontece ué, e é normal.
E com o homem é igualzinho. Quando quer, ele sabe ser atencioso, fofo, simpático, conquista não só você como sua mãe, avó, tia e cachorro.

Leva flores, liga quando chega em casa, manda mensagem de boa noite e de bom dia, insiste pra te ver o final de semana inteiro, lembra do livro que você queria e aparece com ele de surpresa no meio da semana, sente quando a TPM manda as primeiras ameaças e já chega de mansinho com uma caixa de chocolate sem glúten, pra não dar margem pra reclamações. Te deixa roubar a batata frita mesmo você dizendo que não queria e sai no meio do filme pra comprar pipoca se você pedir com jeitinho.
Se preocupa com a sua gripe, se disponibiliza pros maiores programas de índio porque você quer muito, estuda seu facebook, sente ciúmes mesmo sem poder e ter motivo. Sai da festa cedo só pra te encontrar, desmarca com quem for e não perde uma oportunidade de estar presente.

Se empenha em dar certo, se declara mesmo contrariando os conselhos do resto da humanidade, diz que sente saudades quando acabou de te deixar em casa.

Quando homem quer, ele faz acontecer. Assim como nós, mulheres.

O segredo é conciliar essas vontades.
Porque quando ele quer e ela não, é nojinho-irreversível garantido.
Quando ela quer e ele não, “esse não vale nada”!

Calma galerinha, ele não é um babaca-incorrigível-traumatizado-que não-sabe-valorizar-uma-mulher.
Ele só não quer, só isso.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Meu Bem e Minha Filha.

Casa de vó é algo único no mundo, né?

Dia desses, sem computador, internet e impressora, pedi socorro pra minha e fui até la, usar e abusar.
Sim, minha avó tem computador, impressora, facebook, está se formando no curso de Pacote Office e pesquisa receitas na internet, frequentadora assídua do site da Ana Maria Braga.

Chegando lá, final do dia, estavam os dois assistindo jornal, um calor danado, o computador já estava ligado, pronto pra eu usar, meu avô acendeu as luzes, ligou ventilador, abriu janela, trouxe papel pra impressora, avisou que tinha trocado as tintas naquele dia e perguntou se eu precisava de mais alguma coisa.

Enquanto isso, minha avó gritava da cozinha me oferecendo “abacaxi docinho”, depois “laranja picadinha” e por último, se eu queria jantar “um ovo mexido rapidinho com o que sobrou do almoço”.

Durante as poucas horas que tomei uma surra da tecnologia, eles continuavam entretidos com o jornal.

De vez em quando minha avó aparecia e me mostrava o presente que ela ia ganhar de natal, ou comentava que tinha ficado super feliz de ter me tirado no primeiro sorteio do amigo oculto da família, pena que tivemos que sortear de novo.
Depois meu avô apareceu, veio pedir ajuda pra fazer check in online pra viagem desse final de semana, mas achava que ainda era muito cedo e não conseguiria.

Quando estava quase terminando, ouço vindo lá da sala:

“Sabe o que eu queria comer agora, meu bem?”
“O que, minha filha?”
“Quibe, to com vontade de comer quibe há dias!”
“Mas não tem quibe, minha filha, come essa laranja e depois você encomenda quibe que eu vou lá buscar pra você matar a vontade”.

Sempre nas pequenas coisas, sempre cuidando um do outro.
Quero simples assim, bonito desse jeito: Meu Bem e Minha Filha, seu Carlos e dona Isa, no quibe, na laranja, nas viagens, na vida.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Obrigada, seu-João-do-ponto-do-ônibus.

Quarta feira, meio dia, sol escaldante na Central do Brasil.
Saindo do hospital municipal Souza Aguiar, uma senhora de uns oitenta anos, sozinha. Ela andava curvada, se apoiando na bengala, uma bolsa pendurada e na mão livre carregava duas caixas de remédio e um papel que deduzi ser a receita médica.

Cinco passos fora do hospital, ela começou a se escorar na grade, se segurando pra não cair, a bengala já estava no chão, depois as caixas de remédio.

Enquanto a cena acontecia quase que em câmera lenta, duas pessoas passaram por ela, sem reparar no que se passava. Uma mulher de uns trinta e poucos anos, falando ao celular, desviou das coisas caídas na calçada e seguiu viagem. Um homem na faixa dos cinquenta, reparou alguma coisa estranha, olhou pra trás mais uma vez e continuou andando, sacudindo os papéis que carregava.

Do outro lado da rua vive um mendigo. Ele mora ali, naquele pedaço de calçada, tem colchão, barraca, cachorros, carrinho de mão. Não sei dizer sua idade, é difícil quando se está coberto de sujeira e barba, mas não é novo.

Quando a senhora ia desabando no chão, ele não esperou o sinal fechar, atravessou correndo. O sanduíche com o guaraná natural que ele tinha acabado de ganhar foi parar no meio da rua, atropelado pelos carros. Seguido de dois cachorros que latiam atrás dele, abriu espaço na calçada, gritou por ajuda mas ninguém reagiu, pegou a senhora no colo e correu pra dentro do hospital.
Uns acharam que era assalto, arrastão ou briga de moradores de rua e apressaram o passo, não os culpo, afinal, aquele não é dos lugares mais seguros da cidade.

A senhora não se incomodou que um mendigo a carregasse, não se importou com a sujeira ou mau cheiro. Não olhou pra cor ou pro bolso dele. Ela estava inconsciente, e o único que foi capaz de parar o que estava fazendo e prestar socorro, foi ele.
Quando cheguei perto, a bolsa e os remédios dela ainda estavam no chão, recolhi tudo e entrei no hospital procurando por eles e, mais triste do que qualquer falta de reação anterior, foi presenciar o segurança do hospital expulsando o mendigo que falava baixo enquanto saía pelo corredor:

“O senhor não pode ficar aqui dentro.”

“Só me fala se ela vai ficar bem? Não to fazendo nada amigo, só quero esperar pra saber se ela vai ficar bem…”

Encontrei com eles no meio do corredor, e quando ele me viu segurando as coisas dela, arregalou os olhos, abriu um sorriso cansado e disse:

“Ô minha filha, nessa correria, acabei nem lembrando de pegar as coisas do chão, obrigado viu!”

“Imagina! O senhor sabe como ela está? Vai ficar bem?”

“Minha senhora, ele não pode ficar aqui, se vocês quiserem conversar, vai ter que ser lá fora.”

Olhei pro segurança, ignorei.

Voltei pro mendigo:
“Ela vem aqui toda quarta, e pega o ônibus no ponto do lado de onde eu durmo, ela é sozinha, não tem ninguém, e tem câncer. Toda semana ela vem pros remédios, e sempre traz alguma coisa pra mim, esse casaco aqui, ela quem me deu, disse que era do filho que ela perdeu.”

Eu já estava com os olhos cheios de lágrimas, e ele continuou:

“Eu só queria saber se ela vai ficar bem. Ela é minha amiga, ela conversa comigo. Eu não podia deixar ela ali no chão depois de tudo, entende? Mas o amigo aqui não me deixa perguntar, não to pedindo nada demais.”

Olhei pro segurança e pedi:
“Moço, deixa só eu perguntar como ela está, depois nós dois vamos embora, não custa nada. Por favor?”

“Você pode entrar, ele vai ter que esperar no portão, lá fora.”

Fiquei abismada com a frieza do indivíduo.

Mas ele parecia acostumado:
“Tá bem, minha filha, preocupa não, to ali fora esperando. Só faz isso pra mim? Descobre se dona Carmem vai ficar bem, e avisa que o seu-João-do-ponto-do-ônibus tá esperando ela sair, que ela não trate de morrer hoje, senão vou atrás e acabo com ela!”

Eu fui, perguntei, nenhum médico soube me responder. A mulher da entrada disse que ela tinha sido levada pra uns exames, mas não sabia informar nada mais.

Quando saí, seu-João-do-ponto-do-ônibus estava de pé no portão, com seus dois cachorros sentados de prontidão.
Ele me olhou com aquele olhar que dona Carmem ficaria boa só de imaginar e não perguntou nada.

“Ela foi levada pra uns exames, mas não sabem ainda o que aconteceu, só sei disso, desculpa.”

“Ai minha filha, deus protege mendigo, criança e bêbado sabia? Passei um pouco da minha sorte pra ela! Só de você me falar que ela ainda está viva, já fico agradecido!”

Agradecida fico eu, seu-João-do-ponto-do-ônibus.

Obrigada. ❤️

Marcella Vasconcellos.🎈

Nunca é demais.

Criolo se esparrama por aqui, enquanto Vinicius se perde pelas belas garotas de Ipanema mundão afora, a alma de Tom canta e descompassa de saudades ao sobrevoar a cidade maravilhosa eternizada por André Filho. Tom e Vinicius se dividiram entre tantas que até João Gilberto, Adriana Calcanhoto e Roberto Carlos concordaram com a ode às cariocas que, não bastasse, ganhou sua versão pro estrangeiro na voz de Celso Fonseca.
Pra ser justo e deixar claro que essa cidade vai muito além dos cartões postais, Jorge Ben não esqueceu da galera de Feira de Acari à Central, passando por Madureira, Pavuna e Mangueira. Ao chamar o síndico, ainda colocou o preto safado do Tim Maia na roda, que foi do Leme ao pontal regado à guaraná, suco de caju e goiabada para sobremesa, claro. Quando voltou do exílio, Gilberto Gil veio cheio de saudades dar aquele abraço no Cristo que o recebeu de braços abertos e acolheu seus deboches e saudações às figuras ilustres da cidade.

Esse Rio de Janeiro que inspirou tantas músicas e tanta gente, tem minha atenção e apreço há muito tempo. Quando a gente mora numa cidade, tudo passa a ser comum, e quando volta de uma temporada fora, um ano ou uma semana, os problemas continuam existindo, mas as coisas bonitas parecem mais bonitas. E nesse caso, elas são lindas.

Pessoas de todas as partes vêm pra cá, por amor em muitos sentidos, colocam o coração na bagagem, tomam coragem e atracam, de mala e cuia, em busca do sonho carioca, do lifestyle despretensioso ou com a falsa ideia de que vai encontrar um artista a cada esquina, enfim, qualquer que seja o motivo que o fez chegar aqui e criar raízes, por livre e espontânea vontade, é sempre válido.

Ela não é a maior cidade do país, mas tem o amor de grande parte dele. Aqui a gente evita alguns lugares, fica de olho em possíveis ameaças ao redor, não pára com vidro aberto nos sinais, evita andar a pé durante a noite, não usa celular na rua, tem poça d’Água que mais parece piscina olímpica, pivete que assalta e motorista de ônibus espirituoso. Já ouvi uma moça dizer que jamais largaria a qualidade de vida do interior ou do litoral sul pra se aventurar na terra do samba, da mulata e do futebol. Tudo bem, respeito, mas posso dizer uma coisa? O purgatório da beleza e do caos, como já dizia Fernandinha, tem seu charme, afinal, belas paisagens e submundos fazem parte da alma carioca.

Quem diria que uma cidade teria de tudo um pouco? Ao sair de casa, você dá “bom dia” pro porteiro cearense, pega táxi com o motorista baiano, faz a unha com a manicure goiana. O garçom que te atende é pernambucano e a moça da livraria tem ares do Sul. No metrô o sotaque arrastado ainda domina, mas nunca é único, você esbarra com o holandês que veio pra Copa, conheceu o amor da vida e resolveu ficar.
A cidade que tem o pôr do sol no Arpoador aplaudido, dos solteiros convictos, das garotas douradas, do chinelo no cinema, do biquíni até anoitecer, do mate de galão e de encantos mil ensina muito sobre respeito, faz quebrar alguns paradigmas e deixar preconceitos bobos no passado, afinal, uma de suas vistas mais privilegiadas, é a da favela.
Tem espaço pro funk, pra socialite, pro sertanejo, pro roqueiro, pro gay, pro rico, pro pobre, pra todas as religiões, todos os credos, todas as tribos, todas as cores, todas as raças. É maior que coração de mãe.
Tem comida dos quatro cantos do mundo, tem rua só de muamba, outra só de marcas de luxo, tem bairro boêmio, e rua das flores. Tem estátua de Vênus na rua, e Saci Pererê também. Tem um museu chamado MAR, uma casa de show chamada Circo, um submarino aberto à visitação, um lixão que leva o nome de Jardim, uma feira famosa debaixo de elevado, tem centro cultural, museu do telefone e de arte contemporânea, entre muitos outros.
Tem prato feito por oito reais, quentinha por cinco e sanduíche por sessenta. Tem mansão do lado de quitinete. Tem a maior floresta urbana do mundo, tem verde, tem mico, tem cachoeira à distância de um ponto de ônibus. Tem centenas de padarias e outras centenas de botecos-pé-sujo. Tem poluição, no céu, no chão, no rio, tem céu azul no centro e na orla. Tem baile funk com ingresso a cem reais e festa grátis no Leme. Tem parque pra cachorro com DJ e cerveja. Tem metrôs e ônibus lotados, mas não há lugar em que você não possa chegar. Tem rock, tem samba, tem funk, tem bossa nova. Tem Chanel, tem Louis Vuitton, tem Senhor dos Passos e Alfândega, tem feira livre todo dia, tem fruta fresca, tem mercado com fila pra comer o melhor bolinho de bacalhau da cidade, tem manifestação de todas as artes, música, moda, teatro, grafite. Tem trânsito chato, quinze minutos facilmente se transformam em um hora, tem vento fresco com cheiro de maresia, chuva no final do dia e calor à tarde, mas morar no Rio de Janeiro é estar preparado para viver o verão durante os 365 dias do ano, morar no Rio de Janeiro requer paciência, sim, mas (quase) todos os defeitos são justificáveis e facilmente perdoados, como guardar rancor de uma cidade que abraça a todos sem distinção?

Essa divagação não tem nenhum objetivo específico, não tem começo, meio, ou fim… É só uma declaração de amor espontânea.
Rio de Janeiro, não é seu aniversário, mas você está de parabéns!

Marcella Vasconcellos. 🎈

Simples assim.

Sentada no ônibus, ouvi a menina do meu lado falar ao telefone:

“Você não quer um namorado, quer um dono!”

Não conseguia saber o que a outra pessoa contava pra entender a conversa completamente, o que não impediu minha imaginação de funcionar.

Foi então que comecei a pensar, que tipo de amor as pessoas procuram?

Não sei todo mundo, heterossexuais, homossexuais, padres, crianças, idosos e animais.

Mas eu procuro um amor simples. Que queira mais sorrir que chorar, bem humorado e de bem com a vida.
Um amor que seja amigo, parceiro, amante e real.
Um amor que me mostre que sozinha é bom, mas com ele é muito maior.
Um amor que queira conhecer o mundo comigo, que sugira lugares paradisíacos e esquinas inóspitas.
Um amor que me considere a melhor companhia, melhor amiga, melhor pessoa, mesmo que muitas vezes não seja.
Um amor que dê valor a um domingo a dois dominado pela preguiça.
Quero um amor que goste de cachorros e se incomode com a casa suja de pêlos.
Quero um amor que saiba que escada rolante é sinônimo de abraço involuntário.
Um amor ciumento, mas seguro.
Um amor que goste dos meus pais, que faça tudo pelos meus avós e adote meu irmão como se fosse dele.
Quero um amor que me enxergue como ninguém nunca olhou antes, que veja em mim qualidades que eu escondo e defeitos gritantes e, por eles, escolha ficar.
Um amor que saiba da minha incapacidade em receber elogios, mas os faça mesmo assim.
Quero um amor que saiba qual é minha flor preferida, e apareça numa quinta feira qualquer com ela, roubada do jardim do vizinho.
Um amor que não tenha vergonha do meu jeito largado de sentar, que ria do meu sotaque e ache graça nas minhas manias.
Um amor que tente controlar minha compulsão por coçar mordida de mosquito, mas não fique bravo quando não conseguir.
Um amor que vá à praia comigo, planeje uma viagem pra serra e goste de frio e neve.
Um amor que faça surpresa.
Um amor que apareça de surpresa.
Quero um amor que seja sincero e misterioso, que conheça suas qualidades e defeitos, que cultive-os, mas não se apaixone demais por eles.
Um amor que opte por falar a verdade, mesmo quando a mentira é mais fácil.
Um amor que goste de cozinhar, e experimentar novos sabores. Que me ajude a cuidar da horta e mantenha a casa sempre florida.
Quero um amor que me peça conselhos sobre trabalho, o presente da irmã, e me ajude nas crises existenciais.
Um amor que conheça seus direitos e nunca desista deles, mas não seja radical.
Um amor que queira discutir política internacional e o preço do tomate.
Quero um amor que saiba conversar.
Um amor que não espere perfeição, mas grite pra quem quiser ouvir que fui feita sob encomenda, só pra ele.
Quero um amor que trate bem a mãe, veja no pai seu amigo e que tenha seus irmãos sempre por perto.
Um amor que seja gentil e carinhoso, mas não seja chato e grudento.
Quero um amor que goste de crianças, e queira ter filhos.
Um amor que saiba fazer piada mas saiba falar sério.
Quero um amor que me chame pra assistir uma ópera e na semana seguinte pra experimentar o churrasquinho de gato da esquina.
Um amor que cumprimente o porteiro, e esteja sempre disposto a ajudar um estranho.
Quero um amor que goste de ler, e não ache maluca minha ideia de ter uma biblioteca só de livros já lidos.
Um amor que queira a casa cheia, que entenda minha paixão por filhotes de cachorro e meu pavor de sapos.
Quero um amor que goste de música, sem restrição, e me chame pro cinema mesmo detestando comédia romântica.
Um amor que queira conhecer Tailândia, Vietnã, Budapeste, e o mundo.
Quero um amor que me ligue animado com qualquer promoção de passagem aérea.
Um amor que planeje o final de semana, as férias e a vida, lembrando de mim.
Um amor que tenha fantasias, viva com a cabeça na lua e o pé na estrada.
Um amor que ligue no meio da tarde “só pra dar um beijinho”.
Um amor que goste de fotografia, arte e café. Curioso, engraçado e desorganizado.
Um amor metódico, mas caótico, orgulhoso que saiba ceder, leal e discreto.
Um amor que não tenha medo de envelhecer e use perfume.
Quero um amor que saiba que, em geral, as histórias de amor acabam mal, mas mesmo assim continue tentando.
Quero um amor imperfeito, mas que tenha a inegável qualidade de ser de carne e osso.
Quero um amor que tenha início, meio e fim, não necessariamente nessa ordem.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Diálogo interior.

Segunda feira é o dia internacional da dieta, foi colocando o tênis rumo à academia que pensei nisso, e lembrei de um diálogo que ouvi esse final de semana.

Um grupo de mulheres num churrasco, diga-se de passagem, nada muito light, conversava sobre dieta, emagrecer, menopausa, dificuldades e comidas, aham, daqueles assuntos pre-fe-ri-dos.

Entre receitas de salada de quinoa e pão sem glúten, uma delas confessou:

“Sabe aquele diálogo interior poderoso? Enquanto caminho, vou me xingando – isso, come mesmo, assalta a geladeira, agora tá tudo balançando, vai sua infeliz, faz aquele prato de peão, você merece estar assim, gorda-obesa, come aquele bolo no café da tarde, é uma vagabunda mesmo – tudo isso durante a caminhada, vou lembrando de tudo que eu fiz e não devia.”

Em seguida, outra entrou no embalo:

“Ai sei bem como é isso, enquanto eu to na academia, meu personal me olhando com aquela cara de deboche só porque ele é magro-2%-de-gordura, olho pro espelho e durante o exercício fico repetindo – nossa, que barriga é essa, mulher, pelo amor de Deus e essa bunda que só aumenta e cai, como pode? Olha esse braço, não é possível, você precisa parar de comer, não dá pra ficar assim, que coisa horrível, olha aquela ali do lado, a bunda dela bate no ombro e o braço dela parece palito de dente, não é possível que você não perceba como você tá horrível – e quando vou embora, ainda digo pro personal que odeio ele!”

No dia seguinte ouvi de uma amiga outro comentário:
“Eu não quero nem encontrar com ela, imagina se ela me vê desse jeito, obesa?! Melhor nem sair de casa!”

Depois de gargalhar ouvindo isso, e imaginar a cena, fiquei pensando, como é difícil pra uma mulher se considerar “bem”.
Gente, muito difícil.
Essas pessoas em questão não são gordas-obesas como elas se definiram, não mesmo, só queriam se sentir bem com elas mesmas, ou se acharem melhores que as de braço-palito, que a atual do ex, ou que qualquer uma das angels da Victoria Secret, só isso, poxa.

Os homens que chegaram até aqui podem achar uma grande baboseira fútil tudo isso, porque a verdade é que estar linda é algo que interessa às próprias mulheres, muito mais do que aos homens.
Pra eles, gastar dinheiro, tempo e saliva com isso, é besteira, afinal, o poder da beleza existe, mas é finito e acaba rápido.
Uma vez ouvi de um homem que se ele tem uma mulher interessada nele, na casa dele, a última coisa que vai pensar é naquela celulite que não sai da nossa cabeça.
Já ouvi homem definir que beleza é muito menos importante do que bom humor e interesse sexual.
Isso sim, fascina.

Mas a situação se agravou quando eu sai da academia, entrei no elevador e a menina que entrou comigo – bonitinha, magrinha, tudo no lugar – estava chorando.
Aquele choro contido, ela tentava engolir mas era quase impossível.
Enquanto observava, fiquei pensando: será que ela se xingou tanto de frente pro espelho ou se matando na esteira que se fez chorar?
Gente, será que ela SE fez chorar?!
Vamos parar com isso por favor, ela estava conseguindo me fazer repensar o churrasco do sábado e o almoço de domingo.

Ela é bonita, assim como as outras citadas acima, assim como a maioria que está lendo, porque ela é normal, tem tudo no lugar, tem cara de mulher interessante, tem corpo de mulher interessante.
Prestemos atenção mulherada do século XXI, se sentir bem é fundamental, mas enfiada de pé na jaca nenhuma merece lágrimas, xingamentos e maus tratos.
Agora repitamos: “não mais chorarei pela cerveja de sexta, o brigadeiro de sábado e a pizza de domingo”.
Porque jaca nenhuma merece isso, quando bate aquela insatisfação, pode acreditar, ela só piora com o mau humor, a falta de paciência e a ausência de um sorriso.

Dá pra ser bonita, feliz e normal, sem tanto sacrifício, sem tantas privações, sem tanta maldade. Sem ser perfeita.

Homens, continuem assim, não temos do que reclamar, já basta termos que superar as angels na nossa cabeça.
Mulherada, menos xingamentos e mais caminhadas na praia com direito a pôr do sol, trilhas até o ponto mais alto da cidade, e passeios de skate com o cachorro, vale mais a pena, é mais bonito e ainda dá pra se orgulhar da foto (e, é claro, emagrece).

Marcella Vasconcellos. 🎈

Bom dia. ❤️

Entrei no ônibus as 15:43, dei bom dia pro motorista e recebi a seguinte resposta:

“Olha a menina, quase de noite me dando “bom dia”, tá doidona? Boa taaaarde, nega-do-cabelo-ruim-qual-é-o-pente-que-te-penteia?” (dançando)

Eu ri, me corrigi, cumprimentei a trocadora e sentei.

Ele atravessou a cidade gritando com outros motoristas pela janela, jurando amor para as mulheres na rua, parando o trânsito pra alguém atravessar fora da faixa, cantando e sorrindo.
Ele infringiu quase todas as leis do trânsito, não parou em nenhum sinal, não respeitou mão dupla, nem deu preferência quando devia.
E quando alguém sinalizava pra descer no próximo ponto, ele gritava lá da frente:

“Jovem, ôô jovem! Pra onde você vai?”

“Ficar no próximo ponto, moço!”

“Não, jovem! To perguntando pra onde você vai meeesmo, qual prédio, qual rua?”

“Ah… (as pessoas começavam a olhar pros lados esperando a câmera e a pegadinha)… Vou pra aquele prédio ali.”

“Então vou te deixar lá na porta, jovem! Considere isso meu presente de natal!”

E ele deixou, lá na porta. Não fez isso uma ou duas vezes, mas sempre que alguém ia sair do ônibus lotado, inúmeras vezes.
Todas elas, como presente de natal.

Alem disso, ele cantava, o caminho foi todo ao som de Tim Maia.
Não tinha música de fundo, não tinha rádio de pilha, era ele cantando, alto, gritando.
No intervalo entre uma música e outra, soltava uns comentários como “esse gordo era o máximo!” ou “esse preto safado não podia ter morrido”.

A essa altura do campeonato, ninguém mais parecia preocupado com o trânsito, com o fato dele estar acima do limite de velocidade ou andando na calçada, as pessoas só conseguiam rir e se divertir, e quando saíam do ônibus, sempre olhavam pra traz, sorrindo e dando tchau.

Quando uma senhora perguntou, rindo, sempre rindo:
“O senhor é sempre assim ou usou alguma coisa hoje?”

“Nada, minha flor, eu ganho mil reais por mês, moro no fim do mundo, trabalho sem ar condicionado e banheiro e minha branquinha me largou. Se não for assim, não tem como, as pessoas precisam aprender a se divertir com a desgraça, eu to sempre aprendendo!”

A senhora foi embora, deu tchau acompanhado de um sorriso.
Quando eu fui descer, ele fez o mesmo ritual, me deixou na porta de casa e falou:

“Vai nêga-do-cabelo-ruim, bom dia pra você também!”

Eu dei tchau e um sorriso, e parei pra atravessar.
Ele sorriu, parou o ônibus, fez todos os carros atrás dele pararem também, indicou com a mão pra eu passar e depois continuou gritando:
“Feliz natal, nêga! E bom dia!”

Bom dia. ❤️

Marcella Vasconcellos. 🎈