Rio de Janeiro X São Paulo

Sentada no aeroporto do Rio de Janeiro, sozinha indo pra São Paulo, final de uma quinta feira ensolarada e quente, muito quente.
Alguém pára na minha frente, interrompe meu livro e me obriga a levantar os olhos.
Era um homem, trinta e poucos anos, roupa social, e bastou abrir a boca pra saber que era paulista.
Perguntou se o lugar ao meu lado estava vazio, porque o aeroporto tava lotado e ele estava exausto (palavras dele).
Falei que sim, tirei minha mochila, ele sentou.
Voltei pro livro, ele voltou a falar. Devo parece, pra quem não me conhece, alguém bem simpático, porque sem qualquer cerimônia, ele se sentiu confortável em tagarelar.
-“Carioca né?”
-“Uhum”
-“Logo peRcebi. Sabe como paulista reconhece mulher carioca?”

(tive medo da resposta)

-“Chega num lugar tipo esse: aeroporto. Ela é aquela que tá na única parte que bate sol, porque em lugares com ar condicionado desse jeito, elas nunca estão preparadas pro frio, então correm atrás de todo resquício de luz solar pra esquentar (eu estava no sol). Além disso, são aquelas com cor de praia, sabe? Você olha e já sabe que aquela ali, mano, tem praia acessível todo final de semana, sem precisar viajar. E o cabelo é sem cor, não é nem loiro, nem preto, é cor de praia, cor de quem não se importa que o sol tá queimando, ficando assim, igual ao seu.”

A essa altura, já tinha parado de ler, guardado o livro e olhava pra ele pensando em escrever cada palavra.

-“Uhm… Mas nós também temos casacos, e ficamos brancas-cor-de-parede, pode acreditar”
-“Claro, eu sei, eu sei. Mas na grande maioria vocês são assim, mesmo sem querer. Mesmo querendo parecer que é sem querer. Tá enteNdeNdo?”
-“To entendendo.”
-“Tem outra coisa também, vocês não usam muita maquiagem de dia, e usam havaianas pra tudo. Meio treta isso, né? Puta gay esse comentário, mas ó, sou gay não. Namorei muito tempo uma carioca, a gente acaba aprendendo alguma coisa.”
-“Depois de analisar tanto, não tinha como dar certo né”

(passageiros do voo 3943 – eu – última chamada)

-“Na veRdade, acabou porque eu não aguentava mais essa mania de falar X no lugar de S. Mas aí deu treta, olha eu aqui, de cara por outra mina carioca!”

Eu ri e sai correndo, já estava mais que atrasada.
Ele deu tchau e, rindo da minha cara, finalizou:
-“Te encontro na volta Carioca, no lugar de sempre, no sol!”

Pessoas que dominam a arte da simpatia e da sutileza, mesmo nas pequenas coisas.
Obrigada paulista-que-não-sei-o-nome!

Marcella Vasconcellos. 🎈

O que é que eu vou fazer com essa tal tradição?

A gente desapega de coisa, de roupa, de lugar, até de pessoa, mas desapegar de tradição é a coisa mais difícil na minha opinião. Quando digo isso, me refiro a todo tipo de tradição, aquela instituída, a implícita, aquela que ninguém sabe de onde surgiu, mas já faz parte da rotina, aquela que só um dos envolvidos sabe, enquanto o outro acha que é mera coincidência.
A tradição boa, e também a ruim. A tradição que deixa feliz, e aquela que deixa triste.
Tradição é sempre ela, a mais difícil de deixar pra trás.
Quando você tem aquela reunião no lugar de sempre, não importa se chove canivete ou se acordou super atrasada, no caminho tem sua cafeteria preferida, e você vai parar pra um café, mesmo que seja “to go”.
Você não imagina seu final de semana sem o cinema de sábado, o passeio no parque de domingo, a caminhada com o cachorro até a praia ou o acarajé da feira. Tradição é uma peste.
O chopp de quarta com os amigos, aquele cumprimento do porteiro de sempre, a brincadeira com a moça do cafezinho todo dia de manhã, o bombom recebido quando a TPM manda seus primeiros sinais, a ligação da mãe pra saber se está tudo bem sempre no final do dia, e quando ela não liga, você sente falta, mesmo nunca admitindo isso pra ninguém.
Porque tradição é um problema pra desapegar.
A recepção do cachorro quando você chega em casa e, quando ele não está, bate aquele vazio. Não só porque é bom ter alguém feliz te recebendo no final de um dia cansativo, mas porque já virou tradição.
O carinho durante o filme, e quando ele não acontece, acende um sinal de alerta de que alguma coisa está errada.
A ligação de bom dia, a mensagem de boa sorte, o beijo de saudade.
A reclamação da roupa que, enquanto você se vestia e se olhava no espelho, já imaginava aquele pitaco de “você vai assim?”.
A cara de desaprovação quando corta o cabelo, ou a reação de não saber a resposta certa quando a pergunta é “você acha que eu engordei?”, tudo isso já é esperado, aquela doce rotina das pequenas tradições que a gente nem sabe que existem, e só repara quando elas cessam.
Os assuntos polêmicos que, só de olhar, já se sabe que aquilo será pauta de discussões intermináveis, com cada um gritando de um lado e, no final, sem saber o motivo daquela cena toda.
Aquela pergunta que sempre vem depois que você encontra alguém na rua, adiciona no facebook ou curte uma foto no Instagram: “da onde vocês se conhecem?”. E, se por algum acaso divino, essa pergunta faltar, pode ter certeza, alguma coisa está muito errada, e a outra parte, que sempre disse detestar esse tipo de coisa, vai achar muito estranho.
Porque tradição é assim, quando a gente menos espera, sente falta até daquelas que reclamamos.
Quando a gente menos espera, se pega sentindo saudades da preguiça diária, da enrolação pra resolver um assunto pendente desde 1988, da desculpa esfarrapada como motivo do atraso e até daquela dança de comemoração pra esfregar na cara que você estava errada o tempo todo.
E quando alguma coisa muda, são elas que fazem a maior falta.
O lugar de sempre, as fotos imaginárias, os carinhos uma vez feitos, o jeito de dar as mãos, a ligação que não chega, as viagens de final de semana, e os mil planos de um futuro que, mesmo abstrato, já era tão real.
A espontaneidade de fazer do corriqueiro algo essencial, transformando-o em tradição, fazendo dele a maior saudade, a parte mais difícil de deixar no passado.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Easy tigress, easy.

O clima de pós guerra civil paira no ar, não sei dos outros, mas o Rio de Janeiro, apesar de chuvoso, continua lindo.
O dia amanheceu esquisito. Já viu o tamanho desse país? E quase 49% das pessoas não se sente representada pelo atual governo, o que alem de muito alarmante, é ótimo pra deixar claro que, do jeito que aconteceu nos últimos 4 anos, não agradou. Que a nossa atual representante saiba encarar como uma segunda chance, e que não estamos dispostos a dar a terceira.
Apesar da briga de torcidas que foi esse último mês, porque não parecia eleição, estava mais pra véspera de final de copa do mundo, afinal, somatizou né? Bandeiras, camisas, buzinas, xingamentos, dedo na cara. Que isso, minha gente? Demoramos tanto pra conquistar a sonhada democracia e o evento que deveria ser símbolo disso, vira a algazarra de apontar culpados, burros, ignorantes, por quem se acha superior à que exatamente? Fiquei confusa.
Estamos no mesmo barco e, a não ser que você, de fato, saia do país, for good, os seus impostos também continuarão excessivos e porque não dizer, desviados?
O ponto aqui é: ninguém é inferior, estupido ou, como tenho visto por aí, tem prazer e apoia ser enganado. O que falta é educação, mas isso é tópico pra um livro, não um texto.
Deixando claro, não estou aqui comemorando vitória de Dilma ou chorando as mágoas de Aécio, nada disso, ninguém sabe em quem eu votei, então baixem as armas, desçam do pedestal e vamos conversar de igual pra igual que somos.
Pode se revoltar, mas você é igual ao nordestino que chama de burro, ou ao militante que chama de utópico, igualzinho.
Ficou comprovado que o voto do banqueiro e o do faxineiro do banco tem o mesmo valor, certo?
A questão é, muita gente que votou na Dilma no segundo turno, não votou nela no primeiro, porque também preferia outra política à essa atual, igual a você que só votou no Aécio agora porque a oposição era o PT. Mas aqueles candidatos iniciais não seguiram em frente, infelizmente, e diante dos que estavam disponíveis, cada um fez sua escolha.
O governo PT cometeu atrocidades? Sim, o governo do PT cometeu atrocidades.
O governo PSDB cometeu atrocidades?
Sim, o governo PSDB também cometeu atrocidades.
Então, meus caros, não estamos falando de “Aecio Messias” e “Dilma mãe dos pobres e oprimidos”. Ninguém aqui é santo. São opções igualmente ruins, que acolhem diferentes tipo de ideais, depende do ângulo que você opta por enxergar.
Há quem desejasse Luciana Genro como presidente, ou até mesmo Levy Fidelix, mas isso não foi viável, então no cenário imposto, aquele que votou na Lu, ontem optou por alguém que não era ela, nem tinha as mesmas plataformas, mas mais se identificava com a ideia transmitida. E ai? Isso faz da pessoa burra? Calmai galerinha, menos, bem menos.

Seu candidato não ganhou? É hora de exercer seu dever e direito de cidadão como nunca. Fiscalize, grite, cobre, volte às ruas a cada insatisfação ou promessa quebrada. Pessimismo não vai ajudar em nada. Ou você realmente acha que falar de golpe de estado, de país dividido, de nordestino burro e de Sudeste que sustenta um país é de grande valia?

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos e nosso papel daqui pra frente é querer mais.
Nosso papel era votar, depois disso, é fiscalizar e cuidar, porque eles não fazem todo serviço sozinho, são crianças e precisam ter a população sempre de olho.
Agora você, que desfez amizade, brigou com amigo de infância, terminou namoro e deu um racha no casamento. Volta atrás, política nenhuma merece todo esse apreço. Afinal, de médico, técnico de futebol, político e louco, cada um tem um pouco. De nós, só é exigido respeito um para com o outro, nada mais.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Re-cal-que.

Ônibus cheio, ouço o seguinte diálogo:

- fala sério, eu montei uma roupa linda, a produção ficou incrível, minha chefe a-do-rou. Dai foi só eu receber um elogio, e a criatura já vem colocar mil defeitos, a cor não combina, eu escolhi errado, o tamanho tá ruim, a estação pede mais decote… Por favor né, recalque demais pro meu gosto.
– mas ela já tinha falado que não gostava dessa cor, não foi nada pessoal, ela só não gosta.
– ah pára! Você realmente acredita nisso? É recalque puro, porque o namorado dela me dava mole e só ela não reparava, porque a chefe me escolheu pra esse editorial e porque minha capa foi parar numa moldura na parede. Re-cal-que.

—pausa da reflexão—

É um tal de “recalque” pra cá, “recalque” pra lá… Que isso minha gente? Por que isso agora?
Quando foi que não gostar de algo ou alguém virou sinônimo obrigatório de inveja? Cadê meu direito de não gostar e reprovar coisas e pessoas? Quando foi que todo mundo ficou tão seguro de si a ponto de ignorar todas as críticas acreditando ser recalque alheio?
Pois bem, se hoje alguém me chamar de gorda, eu vou ser obrigada a concordar e não vou achar que tem alguém com uma super inveja dos meus quilos a mais.
Se me xingarem dizendo que esse texto ficou um lixo, vou aceitar. Afinal, que obrigação as pessoas têm de concordar comigo? Nenhuma.
Essa segurança toda me assusta. É claro que eu sou super a favor de uma boa auto-estima e de uma dose generosa de segurança, por favor, mas existe um teto, como tudo na vida, precisa existir limite. Não, não acho que devemos baixar a cabeça para todas as críticas, mas não podemos ignorá-las por completo.
A consciência da imperfeição é a mãe da evolução.
Como alguém vai evoluir, melhorar e amadurecer ignorando todos os comentários negativos a seu respeito?
Falta humildade para reconhecer erros, muita sabedoria pra encarar esses erros de frente e usá-los para crescer.
Tem algo estranho no ar, isso me dá arrepios, a gente já vive num mundo extremamente individualista e todo esse amor próprio exagerado só coloca ainda mais em risco os relacionamentos humanos, não há mais meio termo, não há mais humildade, não há mais ninguém admirando a arte de ser imperfeito, o que todos nós somos.
O ser humanos moderno precisa lidar com o fato de que não vai agradar a gregos e troianos, que não é tão sensacional assim a ponto de provocar inveja em toda nação e, principalmente, com o fato de que uma crítica pode ser a chance de ouro para se tornar uma pessoa melhor.
É preciso amor, muito mais amor, por favor, próprio e pelos outros, amar tanto a ponto de querer sempre melhorar. Sem ultrapassar a linha, sem ser convencidamente intransigente, não se colocando num patamar acima de todos os outros mortais.
Seus erros são muitos, os meus também, e chamar o apontamento deles de recalque, é ficar pra trás, porque dos meus erros eu tento fazer evolução.
Amar demais pode ser fatal e a pessoa corre um sério risco de ficar insuportável em pouquíssimo tempo – e, aí sim, cheia de recalque.

Marcella Vasconcellos. 🎈

Pelamordedeus!

O bordão mais ouvido/falado/escrito/fotografado ultimamente é um bem fofinho, que eu adoro, mas junto com mais amor, por favor, tenhamos mais educação também!
Educação nunca matou ninguém, minha gente, nunca foi sinônimo de ofensa ou chacota, educação em excesso não é motivo de vergonha, mas a falta dela, por menor que seja, devia ser considerada, no mínimo, infração gravíssima.
A história por trás esse pedido foi a seguinte: estava eu num show, Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, Roger Hodgson, sábado à noite, uma delícia de programa. Eis que, assim que as luzes se apagaram, o grupo de três casais ao meu lado (ressaltando que eram casais maduros, mais velhos, nada de adolescentes fanáticos) não parava de cometer uma infração seguida de outra ainda pior.
Vamos lá, eu sei, era um show, eles provavelmente estavam gritando as músicas, animados ou qualquer coisa normal desses eventos, mas NÃO, eles estavam conversando, batendo papo mesmo, e como a música estava alta demais (porque, né?!) eles precisavam gritar. No curto espaço de tempo de três músicas, fiquei sabendo que eles tinham viajado pra Búzios, e nessa viagem um deles caiu da lancha de tão bêbado e torceu o pé. Mas a melhor parte mesmo, foi quando, na estrada voltando pra casa, o pneu de um deles furou, o que fez com que ele batesse no carro da frente resultando num trânsito de quilômetros na volta de um feriado. Isso tudo, meus amigos, durante o show.
Ta achando que acabou por aí? Senta que lá vem história.
Além disso, uma das mulheres resolveu postar um vídeo no facebook, on time, full time, real time. O problema, senhores, é que lá dentro o sinal de internet era péssimo, e pra postar o bendito vídeo, ela levou nada mais nada menos que todo o resto do evento, ou seja, uma hora e meia.
Beleza Marcella, direito dela de postar o que quiser, pára de ver problema onde não existe. Mas ele existe, e estava personificado bem do meu ladinho, porque enquanto não carregava o maldito vídeo, aquele lindo iPhone ficava brilhando com a luz no máximo, e porque? Porque o marido dela reclamou da luz muito forte na cara dele, e a solução? Virar o celular pra minha cara, porque na minha não tem grilo.
Já está satisfeito? Mas se tem uma coisa que eu tenho, é sorte no azar.
Obviamente, cada um estava com um copo de cerveja na mão, e a cada batida de palma, a cada animo exaltado (e eram muitos), vinha tudo pra cima de quem? Yeah baby.
E sabe como tudo isso seria lindamente evitado? Com educação. Com uns socos também, mas sou educada (ta vendo? Educação salvando vidas).
Não é possível que seja tão difícil perceber essas pequenas coisa, que fazem toda diferença.
Educação é básico, galerinha, pois vivemos em sociedade, numa sociedade pensante e evoluída (ainda há controvérsias sobre esse segundo aspecto, mas vida que segue), e muito me espanta a falta de atitudes primárias e necessárias.
A partir do momento que optamos por coabitar com outros seres iguais, aprender, desenvolver e propagar a educação nas suas formais mais simples e também nas mais complexas, é papel e dever de todos nós. E nisso, incluo o “bom dia” do porteiro, do trocador de ônibus ou do gari da sua rua. O “muito obrigada” pro caixa da farmácia, pro entregador de pizza e pra manicure.
Pode parecer besteira, mas já mudou o dia de muita gente segurar a porta pra alguém que ta chegando, ajudar a carregar as compras pra um atolado, dar um sorriso sem motivo ou recompensa, perguntar se está tudo bem com aquela pessoa com quem você só tem papo de elevador, isso também é educação, e se todo mundo soubesse fazer, ninguém precisaria pedir por mais amor, afinal, seria tão mais fácil amar.
E aqui fica meu apelo, no show, no mercado, na padaria, na farmácia, na sua casa, no meio do mato, mais educação, pelamordedeus, na vida.

Obrigada, professor.

Parada na fila da farmácia, eis que alguém me cutuca e quando me viro, uma agradável surpresa: meu professor de português/redação da época de colégio.
Dez anos depois, menos cabelo, menos quilos, mais idade, e ele ainda me reconheceu.
Mais velhinho que antes, me deu um abraço e perguntou como andava minha vida, que rumo tinha tomado e, de repente, outra surpresa:
“Lembra aquele seu caderno de redação que, no final do ano, te pedi que deixasse comigo de recordação? Pois bem, ainda o tenho, e até hoje mostro pros meus alunos no primeiro dia de aula. Já está amarelo, meio capenga, mas guardo com todo cuidado. Digo a eles que é uma relíquia, e daqui uns tempos vai deixar de ter só valor sentimental porque vai ter sido o primeiro livro de uma grande escritora e, além de ter sido de graça, me foi dado pela própria. Tenho certeza que serve de inspiração pra eles.”

Eu estava boquiaberta, sem reação. Ele continuou:

“Minha querida, nunca deixe isso morrer. Se não for profissional, escreva pra você, para seus amigos e familiares, escreva pra seus filhos e netos. Eles serão eternamente gratos. Você era uma criança e eu já enxergava esse futuro, não te falei explicitamente na época porque você não entenderia, crianças não entendem a dimensão de certos talentos. Mas por sorte do destino te reencontrei numa fila de farmácia e não podia perder a oportunidade.”

Ele pagou e ia saindo:

“Uma última coisa, obrigada por ser meu seu primeiro livro, ainda quando criança, você ganhou seu primeiro fã.”

Virou as costas, e me deixou lá, sem reação, sem conseguir formular uma resposta rápida e eficiente.

Até agora, a única coisa que consigo pensar é: obrigada.
Muito obrigada, professor.
❤️

Assunto do dia: vida.

Estava eu, sentada esperando a aula começar, estabelecendo um prazo de dez minutos para a professora chegar ou iria embora feliz da vida, quando começo a ouvir um bafafá de mulheres discutindo loucamente, porém sérias, todas ao mesmo tempo, claro.
Mais um dia típico na faculdade de direito, mais uma cena típica de mulheres reunidas.
Eis que uma levanta a seguinte questão: “eu quero ter filhos, cuidar da minha casa, dar a atenção que a minha família merece e não depender exclusivamente de empregada, babá e motorista pra tudo dar certo. Isso pra mim é felicidade”.
Comecei a prestar atenção.
E me perguntei, o que é felicidade pras mulheres de hoje?
Obviamente esse conluio de mulheres não chegou a qualquer conclusão. Nem eu, ou me prolongaria muito por aqui, e o que ouvi em seguida tem mais relevância que os meus devaneios.
Voltei minha atenção para o tribunal da inquisição que se formava quando uma delas, que permaneceu de ouvinte o tempo todo, foi militarmente repreendida por lançar a seguinte bomba: “Eu quero ser juíza. E pronto, isso pra mim, é o mais importante. Não faço questão de filho nem marido, não sou fã de viagens, eventos sociais ou qualquer outra ocasião que me obrigue a rir quando não tenho vontade. Esse negócio de agradar aos outros não é comigo”.

Enquanto mulher, posso afirmar, raramente alguma situação consegue nos fazer calar a boca durante uma boa discussão. E, nesse caso, foi unânime, silencio absoluto.
As outras a encaravam como se ela fosse um E.T., uma sequestradora de crianças ou estripadora de velhinhas.
Engana-se quem pensa que o problema foi ela querer o “Não” quando a regra é querer o “Sim”, preferir o cachorro moribundo quando todos se derretem pelos filhotes, eleger o patinho feio para o papel principal, fazendo dos outros meros figurantes.
Ela foi tida como a pior das criaturas pelo simples falo de, não só pensar diferente, mas por tornar isso público.
Afinal, ela pode até abominar crianças, ter alergia à aliança, não saber se relacionar de maneira afetiva ou, pior de tudo (minha humilde opinião), não gostar de viajar, mas daí a FALAR em alto e bom som, sem rodeios, está indo longe demais, querida.
O momento “À defesa da hipocrisia” durou tanto tempo que a professora chegou, extrapolado meu prazo de dez minutos, elas continuavam atônitas, e o robô em questão (como foi carinhosamente apelidada pelas amigas), continuou lendo seu resumo de direito tributário.
Porque? O objetivo dela era outro, ela queria uma coisa, e isso não incluía agradar às amigas, à vontade da sua mãe de ser avó ou da sua irmã de ser madrinha de casamento.
Eu? Bem, a professora chegou, e apesar de querer ser astronauta, bailarina, andarilha, médica ou talvez, física, tenho uma faculdade de direito pra terminar.
Por um mundo com mais “robôs”, que não se intimidam com convenções pré-estabelecidas pela maioria.
E nisso, me incluo sem pensar duas vezes.
🎈

O dia que resolvi pedir por um emprego… Assim:

“Confesso que o visual ajuda.
Escrevo esse email das areias da praia de Ipanema. Nada mais carioca, e poucas coisas traduziriam de maneira mais fiel a minha pessoa.
Mas como isso não se faz suficiente, me inspirarei nos dois irmãos, no arpoador e nas águas dignas do Caribe para, quem sabe, te convencer a ler esse email até o final.

Quebrei todas as regras de como entrar em contato procurando uma oportunidade de emprego e, pode acreditar, já fiz isso muitas vezes.
A questão é: nos lugares errados. Chegou a hora de trabalhar não só por dinheiro, mas também por prazer e, por isso, estou aqui.

Primeiramente, sou carioca, 25 anos, e quase me formando em direito. CALMA! Por favor, continue comigo, me deixe ao menos tentar te mostrar que, apesar desse detalhe, ainda sou uma pessoa legal, animada, apaixonada por viagens, música, cores, fotografia, flores e moda, daquele tipo que passa longe dos escritórios e tribunais.
É verdade, eu sei, pessoas que fazem direito, em sua maioria, são sérias, cinzas e donas da verdade. E é exatamente por isso que esse curso não é muito a minha cara.
Estou terminando a faculdade, mas não quero, e foi (muito) difícil assumir isso, trabalhar na área. É normal, sempre que descobrem o curso que faço, as pessoas me olharem com espanto e, depois de alguma intimidade, perguntarem: “Porque você escolheu direito? Não combina nem um pouquinho com seu jeito”.
Em sua grande maioria, é verdade, não dá match, eu e o direito só temos algumas coisas em comum, são elas: o amor pela leitura e pela escrita, o gosto por uma boa discussão (mas prefiro as mesas de bar aos tribunais), e a vontade de conhecer e saber usar meus direitos como ser humano, inclusive, esta ultima acho fundamental para todo e qualquer cidadão, só assim conseguiremos evoluir como um todo, como sociedade, visando o coletivo, não apenas cada um o seu umbigo.

Pois é, também tenho mania de não ser sucinta, como já percebeu (graças ao direito, mais uma vez).
Tudo isso, pra fazer um único pedido: uma oportunidade de fazer parte de um universo que eu, enquanto estudante de direito, sou sempre rechaçada. Uma oportunidade de lidar com viagem, música, arte, moda e fotografia, e poder fazer disso mais do que o passatempo preferido, mas uma profissão, uma vida.
Eu “só” quero essa oportunidade. A oportunidade de lidar com pessoas.

Pode parecer absurdo, mas até hoje, de todos os trabalhos que já tive, o que me dava mais prazer e me deixava feliz durante oito horas ou mais, sempre em pé, andando de um lado para o outro, foi de garçonete numa rede de restaurantes bem famosa.
Ta vendo, rapaz, felicidade é um treco bem esquisito, né não?

Posso ser tudo, do que você precisar ao que você não suportar.
Desde escrever à fotografar, desde organizar à planejar, desde elaborar à inovar.
A única coisa que eu quero, é uma chance. De que? Aí você já está perguntando demais. Como responder o que eu mesmo desconheço?
Mas por mais estranho que seja esse jeito de pedir (ou implorar), não encontrei maneira melhor, afinal, tradicionalismo está em falta por aqui.

Por fim, se você chegou até aqui, alguma coisa eu escrevi que te agradou, e por isso, já fico feliz.

Obrigada pela paciência, e se algo te interessou, não hesite em entrar em contato, seja num mergulho na praia ou num esbarrão no calçadão, mas se você não me reconhecer em meio à multidão, pode me mandar um email, ou whatsapp, porque quando é pra acontecer, o céu é o limite.

Beijinhos!”🎈

Wake me up when September ends.

Setembro é a sensação de descida da montanha russa. É orquídea que renasce na sua casa quando você já tinha se esquecido o quão delicados os pequenos gestos podem ser. Setembro é cor onde os olhos alcançam, é temperatura certa, é uma luz que não precisa de filtro. Setembro é flor no alto aqui e folha no chão lá. É nascer e morrer pra reviver.

Setembro é dos virginianos, essa turma que veio ao mundo para organizar o caos, dividir as gavetas de roupas por cor, essa gente que impõe senso crítico num mundo acéfalo e que luta pela perfeição, custe o que custar. Setembro é o momento de separar o joio do trigo, de colher uva para preparar o champagne, é hora de comemorar a independência de um Brasil dependente e de relembrar o dia que mudou o mundo pós-contemporâneo e semi-apocalíptico.

Setembro é tudo isso e tantos mais. Mas ainda assim é só um mês. Não vai ser setembro, nem janeiro, nem a noite de Réveillon. Vai ser você. Dê boas vindas a você, a um novo pensamento, a uma nova vontade. Não crie expectativas para um mês que só tem a função de encher um calendário.

No fim das contas, o que importa é saber se setembro chove.
☂ ☼ ♡

Obrigada.

Deve ser incrível você depender da generosidade e das boas intenções de quase todo mundo, quase o tempo todo.
Hoje vi uma cena que me deixou arrepiada.
Estava sentada num banco de uma galeria lendo, quando uma moça nova, bonita e muito simpática parou do meu lado. De repente senti alguma coisa batendo nas minhas pernas e só então olhei pra ela, que estava parada em pé mexendo no celular.
Percebi que era cega.
Perguntei se queria sentar, ela abriu um sorriso e disse: “me mostra onde tem um espacinho?”
Começamos a conversar e ela contou que estava esperando uma amiga com a filha, que era sua afilhada.
Quando a menina chegou, abraçou ela por trás e falou:
“Dinda! Que saudades! Olha quem eu trouxe pra você conhecer, a Lara, minha boneca nova! Vou descrever pra você: ela é um bebê lindo, meio branca meio rosa, tem olhos pretos, assim, iguais aos seus, e cabelo enrolado assim, igual o meu. Ela podia ser nossa filha dinda!”

A dinda gargalhou e abraçou a boneca, a criança riu e perguntou:
“Dinda, ela é sua amiga?”
(apontando pra mim)

E ela respondeu:
“É sim, Lulu, é daquelas amigas que a dinda faz sempre que sai de casa. E que sempre agradece no final do dia, lembra que já te contei isso?”

“Lembro…”
E olhando pra mim:
“Obrigada por ajudar minha dinda, ela não enxerga, mas o coração dela sim!”

Aham, depois de um furo, um trote e de andar um tanto na chuva, meu dia começou cheio de alegria com uma criança livre de preconceitos e com alguém que conta sempre com o melhor de qualquer ser humano.

Obrigada Lulu. E obrigada Dinda da Lulu. ❤️