Escorpião.

Sentou uma menina do meu lado no ônibus e, falando no telefone, ela comentou: “sou muito azarada, sempre entro no ônibus quando meu signo acabou de passar, e pior, nunca dá tempo de ver a próxima rodada”.

Quem anda de ônibus no Rio de Janeiro, sabe do que eu to falando. Me identifiquei, comigo acontece o mesmo.
E ai lembrei de ontem, estava no trabalho e recebi o áudio de uma amiga, num grupo de WhatsApp. Primeiro pensamento: “lá vem besteira”. Mas quando ouvi, percebi que a menina do meu lado não é azarada, nem eu. 
Minha amiga contava, com a voz trêmula, que tinha acabado de presenciar um assalto (até aí, estamos ambientados) e pra finalizar, ainda atiraram na mulher, dentro do carro, sem ela ter reagido (aquela falsa noção de segurança, afinal, um absurdo terem atirado se ela não reagiu. Assalto beleza, tudo dentro dos conformes). 
Existem vários nomes pra isso, mas tenho certeza que não somos azaradas.
Lembrei de ontem, enquanto discutia sobre redução ou não da maioridade penal, e o assunto migrou pra precariedade das instituições do Estado, e das crianças que dele dependem pra serem qualquer coisa além de marginais. 
Lembrei da entrada do hospital público que fica no meu caminho, e da cara das pessoas deitadas na porta, esperando atendimento por horas.
Lembrei do pivete que quase conseguiu arrancar meu cordão ontem, em plena luz do dia, no centro da cidade, e só foi mal sucedido por uma questão de mira. 
“Precisa ficar atenta” – eu ouvi – já não adianta, não dá pra prestar atenção em dez pivetes ao mesmo tempo.
Lembrei da minha família, da minha casa, dos meus objetivos. 
Lembrei que tenho mil planos, e pretendo conquistar todos eles, porque condições não faltam. 
E enquanto eu escrevia, perdi mais uma vez meu signo na televisão do ônibus, mas de que importa isso? 
No final, é só questão de acreditar ou não, no que quer que seja, e agradecer. 

Egoísmo coletivo. 

Sentada no primeiro banco depois do motorista, tô vendo uma mulher gesticulando loucamente com as mãos, falando com o motorista que, por sua vez, estava calmo feito um monge.

A mulher não parava, e todo mundo prestava atenção, tive que tirar o fone pra participar também. Meu pai sempre disse que devemos nos manter informados sobre o que acontece no mundo.

“Ô motorista, o senhor não pode andar mais rápido não? Eu to muito atrasada moço, pelo amor de Deus, que lerdeza!”

E o motorista quieto, sorrindo. 

“Mooooço, faz favor, pra quê parar em todos os pontos?! Olhaí, esse só tem uma pessoa, ela pega o próximo!”

E o motorista rindo. 

“Minha nossa senhora dos atrasados, é minha primeira semana no trabalho, moço, me ajuda!”

E o motorista finalmente respondeu: 
“Minha senhora, com todo respeito, eu amarrei a senhora na cama? Aquele rapaz ali no ponto, ele te prendeu em casa e foi isso que te atrasou? Essa moça aqui, ela demorou a servir seu café, por isso a senhora tá atrasada?”

A mulher ficou muda, e um pouco sem graça. 

“Pois é, minha senhora, n-i-n-g-u-é-m aqui tem culpa do seu atraso, e t-o-d-o mundo tem coisa pra fazer. Então se a senhora não quer pensar no coletivo, melhor não pegar um coletivo, taxi existe pra isso.”

Sorrindo o motorista estava, sem graça a mulher ficou. 

Viva o egoísmo! 
E os motoristas que me rendem ótimas histórias! 

Marcella Vasconcellos. 🎈

Bem vindos ao hell- de-janeiro.

De um lado da calçada, uma moto caída no chão, ambulância, plástico preto, polícia e televisão. Do outro, a vitrine de uma joalheria estilhaçada, e uma senhora morta na calçada. 17:32, quinta feira.

Dentro no ônibus, uma menina fala ao telefone, quando um senhor chama sua atenção: “cuidado minha filha, eles metem a mão pela janela pra roubar o que tiver disponível”. 
Os outros passageiros concordaram, e o senhor continuou “é por isso que eu sou a favor da redução da maioridade penal e, mais ainda, da pena de morte. Já fui assaltado muitas vezes, e ainda querem que eu tenha pena e chame os direitos humanos? Minha vontade é prender a mão dele na janela e mandar o motorista arrancar a toda velocidade”, e os outros concordaram. 
16:50, quinta feira.
Ontem me perguntaram porque é que ultimamente só tenho escrito sobre desgraças e acontecimentos tristes. 
Eu juro que tento (e meu irmão muito me ajuda), mas é difícil falar sobre coisas divertidas, quando voltar pra casa significa muito mais do que um simples “fui trabalhar, mas já voltei”. Significa sorte, pela qual devemos ser muito gratos. 

As pessoas estão cada vez mais entendendo nada, confundindo tudo, e nos levando de volta à um estado de barbarie, moderna e disfarçada. 
Sejam bem vindos.
Marcella Vasconcellos. 🎈

Pra alguém. 

Sexta feira, 18:45, Avenida Presidente Vargas, Central do Brasil. 

Uma senhora, devia ter seus 70 anos, parada no ponto de ônibus com uma mochila e uma mala de carrinho. 
Eu, da janela do ônibus, me pego boquiaberta com a cena de um garoto de, não mais que 15 anos, puxando a senhora pela mochila, em direção à rua. 
Ele queria a mochila, ela, nem se quisesse, conseguiria entregar pra ele daquele jeito. 
Ele puxava como se a vida dele dependesse disso. De repente, depende, mas sinceramente, diante daquele absurdo, pouco me importa.
Ela caída no chão, gritava por ajuda, ele, em cima dela, continuava na tentativa de pegar a mochila. 
O motorista do meu ônibus, quando ouviu os gritos, saiu correndo e foi em direção a eles, que já estavam no meio da rua.
Quando o garoto percebeu que vinha um homem, maior e mais forte que ele, na direção deles, puxou com mais pressa a mochila, sem sucesso. 
O motorista chegou perto e, ao ameaçar bater no garoto, este saiu correndo, deixando a senhora no meio da pista, levou a moral, o orgulho é a dignidade, mas não conseguiu a mochila. 
A senhora estava com o rosto todo ralado, os óculos espatifados e chorando. O motorista a ajudou a levantar, outras pessoas vieram e um cara saiu correndo atrás do garoto. 
Do outro lado da rua, dois carros da PM, com quatro policiais do lado de fora, conversando. 
Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, pra alguém. 

Feliz idade.

Quando você está andando no shopping sozinha e, de repente, ouve uma gritaria de mulheres chamando seu nome, você pensa: 

1) ela não anda, ela desfila, ela é top, capa de revista;
2) são suas amigas reunidas que não te chamaram pra esse encontro; 
3) nenhuma das anteriores. 
Pois a histeria da terceira idade foi encabeçada pela senhora minha avó que, com o grupo de amigas mais antigo (em todos os sentidos dessa palavra), estava na praça de alimentação comendo bolo, comemorando aniversário de uma delas. 
Umas sabiam quem eu era de longe, falaram que eu estava a cara da minha mãe, outras nem de perto, mas gritaram mesmo assim. Algumas falaram que cresci e emagreci, outras que engordei e continuo com a mesma carinha de criança. 
Umas elogiaram minha roupa, outras perguntaram se eu estava vindo do colégio. 
Umas ouviram minha pergunta, outras não ouviriam nem se eu falasse no megafone.
O tempo passa pra todo mundo, umas tem marido, outras não mais, algumas nunca tiveram. 
Umas são sozinhas, outras têm família enorme, umas tem netos, outras adotam netos alheios, mas todas com muitas amigas. Umas são quietinhas, outras tem programação pra semana inteira.
Lembrando ou não, reconhecendo ou não, todas me viram nascer, e é muito legal ver o carinho que permanece. Daquelas que ligam todo ano no meu aniversário, e daquelas que eu só encontro por acaso na rua.
No final das contas, quero ficar assim, fazendo parte da terceira idade, mas gritando no shopping, tendo encontros semanais, fazendo ginástica, aula de dança e curso de informática, comendo bolo com glúten em plena terça feira, e sendo feliz, porque pra isso, o tempo é detalhe. 
Marcella Vasconcellos. 🎈

Louco mundo louco. 

Já ouvi algumas (poucas, amém!) pessoas falarem que não gostam de viajar, acham cansativo, demanda muito dinheiro que poderia ser gasto em outras coisas melhores (pois é, há quem consiga enumerar mais de duas coisas melhores que viajar). 

Desculpa, no meu mundo, vocês são loucos. 
No meu mundo, não existe sensação melhor do que saltar de um trem, avião, barco, carro ou carroça e se deparar com o novo. Um território totalmente diferente, uma língua estranha, comidas exóticas e costumes locais. 
No meu mundo, não existe melhor ou pior, todos os lugares tem algo a oferecer e, se você nunca foi, sempre vai valer a visita. 
No meu mundo, ser turista é um estado de espírito, é ter o peito aberto, é ainda esperar o melhor das pessoas, mesmo com toda desconfiança que temos enraizada.
No meu mundo, há sentimentos conflitantes, aquela vontade de morar em quase todos os lugares, por uma semana, ou a vida inteira. E aquela vontade de conhecer os quatro cantos, e ter medo de não conseguir.
No meu mundo, engordar numa viagem à Espanha faz parte, e emagrecer naquela cidade ao pé da montanha nevada, também. 
No meu mundo, dinheiro serve pra comprar passagem pra qualquer lugar, reservar o hotel no meio do mato ou o albergue no centro da cidade. Pra experimentar o melhor PF da região, e a sobremesa daquela birosca escondida indicada pelo jornaleiro da esquina. 
No meu mundo, querer ser local em todos os lugares é regra.
No meu mundo, não existe tempo perdido, mas vida vivida. Não existe o medo de se perder, mas o de continuar sempre no mesmo lugar. 
No meu mundo, conhecer gente nova  sempre vale a pena, seja uma alemã no Rio de Janeiro, ou um russo na Argentina. 
No meu mundo, viajar pode significar dois dias, seis meses ou dez anos em algum lugar. 
No meu mundo, casa é qualquer lugar onde a gente esteja, feliz. 

“Marcella? Desapegada demais, pode chamar pra viajar pra esquina, ela vai” – meu pai sempre disse isso, e ele tem razão. 
Vai ver a louca sou eu, mas fazer o que, cada um na sua loucura. 

Marcella Vasconcellos. 🎈

Brasil e sua realidade paralela.

Sentada no Starbucks, café e wifi, necessidades básicas. 

Do meu lado parou o Ben, sei disso porque estava escrito no copo, colocou o café e o saco do sanduíche na mesa, tirou casaco, abriu a mochila, tirou laptop e celular, tirou o chapéu, coçou a barba, pegou o troco em moeda que estava prestes a guardar, largou tudo, e foi em direção à saída. 
Eu disse: largou tu-do. Computador aberto, celular na mesa, mochila… Tudo. 
Do lado de fora, tem o mendigo do café, carinhosamente apelidado de happy-coffee, porque ele fica o dia todo sentado com uma placa “coffee and a smile, please, that’s enough”, na entrada desse Starbucks.
O sujeito saiu e, aquelas moedas, foram parar nas mãos do Happy-Coffee. 
Sabe qual a surpresa? Ele recusou, disse que não estava ali pelo dinheiro, mas pelo café e pelo sorriso. 
Eles entraram, Happy-Coffee foi pra fila e o rapaz sentou do meu lado, com mochila, celular e laptop, tudo continuava ali, esperando por ele. 
Não descobri ainda o que achei mais legal, se foi o mendigo com sua placa que, mesmo a -2ºC, na rua, continua positivo. Ou se foi o fato do rapaz ter perfeita certeza de que suas coisas permaneceriam intactas, mesmo sem ninguém pra ficar de olho. 
Essa noção de segurança básica, nós não temos, e o que era pra ser normal, nos é estranho. 
Quem falar que não estranha/admira isso, é porque nunca presenciou algo que, para outros é tão óbvio e, para nós, tão distante da realidade.  

Dez segundos.

Sexta feira, shopping lotado, saída do banheiro.
Me assusta um menino de uns sete anos correndo segurando alguma coisa que escorria água, muita água, nas mãos, e chorando, aos berros.

A mãe dele esperava parada e, mesmo com o desespero do garoto, continuou de braço cruzado fazendo cara de “lá vem mais uma”.

“Mããããe, (soluço, soluço) Meu ce-ce-celular caiu do va-va-va-vaaaso!”

“Eu avisei pra não levar celular pro banheiro, essa mania de ficar jogando até quando não precisa, parece até que tem intestino preso! – pegando, com nojo, o celular – garoto! Você pegou essa bosta dentro de uma privada com mais bosta?!”

“Mããe, agora ele não fun-fun-funciona! Meu pai vai brigar co-co-comigo!”

“Claro que ele não funciona, Tá mergulhado em xixi e sabe-se-lá o que mais né!”

“Mas ma-ma-mãe! Eu usei a regra dos dez segundos que meu irmão me ensinou, não era pra ter que-quebrado!”

“DEZ SEGUNDOS?! Seu irmão te sacaneou e você não percebeu né?! Dez segundos é o que seu pai vai precisar pra acabar com a raça de vocês dois!”

Ah, esses irmãos mais velhos…

Marcella Vasconcellos. 🎈

Brasilidade.

Parada no ponto de ônibus, dois daqueles fiscais de linha sentados numa sombra do meu lado conversando, eis que uma moça nova e bonita vestindo a camisa da seleção brasileira, facilmente confundida com uma passista de escola de samba, se aproxima e, quando vai perguntar alguma coisa, um deles interrompe e brinca:

“Não, não fala comigo vestindo essa camisa que depois da humilhação do 7×1 eu nego minhas origens!”

Ela entra na brincadeira e responde:

“Pois eu não tenho como negar minha brasilidade, meu amor, com essa cor, esse molejo e essa bunda, até mas arábias sabem que eu sou brasileira!”

“E que molejo hein, colega, dá uma voltinha pra gente ver o samba no pé da morena?! Se você tivesse em campo, aqueles cotonete de gigante tinham perdido o rumo e os gols!”

Ela deu a voltinha, sambou sem música, jogou o cabelo, eles aplaudiram e, o ponto de ônibus cheio, babava na morena do 7×1.

Voltaram a ser brasileiros, com muito orgulho, com muito amor.
Alguém duvida?

Marcella Vasconcellos. 🎈

Obrigada, chefe!

Quando seu primeiro chefe te manda a redação do processo seletivo…

“O ponto.
Foi a partir de um ponto estabelecido que o pênalti foi marcado, que a meta foi alcançada, que o sonho virou realidade , e o trabalho foi um sucesso. Com base no ponto, as estrelas tornaram-se foco de estudos milenar e assim descobertas a cerca da origem primitiva vieram à tona. Através do mesmo ponto, uma das maiores teorias da física foi desenvolvida e novas posições continuam surgindo a todo momento.

Entretanto, deve-se lembrar que, para causar tamanho estrago, o cogumelo atômico também precisou de um ponto estabelecido. O tiro que matou o inocente, deixou um ponto em aberto na vida daquele indivíduo. O policial corrupto juntamente com o usuário de drogas, estabeleceram um ponto de mudança não somente para o resto de sua existência, mas para toda sociedade.

Diante desse cenário, podemos concluir que a vida é feita, basicamente, de dois pontos decisivos, atribuídos a várias vertentes, mas em suma, são apenas dois. E, de acordo com os princípios fundamentais que formam um cidadão, devemos fazer nossas escolhas aliando à esses fatores a situação caótica vivia pela sociedade carioca atualmente, é nosso dever não escolher o ponto final, mas o novo ponto de início para, quem sabe, nossos netos desfrutarem de uma cidade muito mais maravilhosa.
Os pontos estão por toda parte, basta querer enxergá-los.”

… E tem uma enorme boa vontade ao falar que você já escrevia bem naquela época, quando foi preciso ler cinco vezes pra continuar fazendo nenhum sentido 90% desse texto.

Mas a parte de guardar de recordação, acertou em cheio, são essas surpresas pela manhã que fazem rir e valer super a pena.

Obrigada, chefe!

Marcella Vasconcellos. 🎈