The Walking Dead brasileiro. 

Passando por uma banca de jornal, li a seguinte manchete: “Brasil teve 225 mortes por faca em um ano”. 

Muito se falou depois da morte do médico na Lagoa. Muita asneira foi dita como: “isso é inadmissível na lagoa Rodrigo de Freitas”. 

Não, isso é inadmissível em qualquer lugar, a não ser que você esteja num episódio de The Walking Dead.

Ouvi um homem de meia idade, e alto nível de educação dando uma explicação lógica: “os animais, racionais ou não, não se alimentam e fazem suas necessidades no mesmo lugar, por uma questão de princípios ou só de higiene mesmo. Por isso, “a vítima da sociedade” não vai matar a facadas o vizinho dele, no lugar onde a mãe dele mora, ou a avó. Ele vai fazer as “necessidades” bem longe de onde dorme e come. Porque você não acha que ele mora na zona sul, né?”

Não sei onde ele mora, pode ser no Cantagalo ou na baixada, e ele é tão animal quanto você. 

Eu sei que somos vizinhos, vivemos sob as mesmas normas, e o que me assusta é o fato dele não ter nenhuma noção de causa e consequência, enquanto eu penso dez vezes antes de furar um sinal. 

A culpa não é da Dilma, nem do Aécio. A culpa não é do Eduardo Pães nem do Sérgio Cabral. A culpa não é de Pedro Álvares Cabral que, há 500 anos, trocou um espelho por um pau brasil. 

O Brasil ainda não deu errado, esse ainda não é um país de merda, como foi chamado por muitos ultimamente. Mas se continuar nesse ritmo, onde uma vida não vale tanto quanto deveria, onde o respeito por outro ser humano foi reduzido à pó. Onde o rol de bons exemplos está cada vez mais escasso. Onde pessoas gritam pela volta da ditadura e que a solução é colocar o exército nas ruas. Onde muitos se dizem a favor da pena de morte sem nem saber o que isso, de fato, significa. Onde na discussão pela redução da maioridade penal, alguns motivos, dos mais esdrúxulos, são citados. 

Onde você tem medo da polícia. Onde você não confia nos órgãos públicos. Onde a moral do governo deixa de existir dia após dia. Onde os cidadãos se sentem roubados e não representados. 

Ainda dá tempo, sempre é tempo. 

Mas se continuar assim, aí sim, que país de merda. 

Marcella Vasconcellos. 🎈

Segunda feira.

Por uma segunda feira mais leve e sorridente. Porque uma pitada de amor resolve tudo. E sempre há um lado bom nas coisas. 

Por pessoas que lutam por um mundo mais gentil, recheado de gente que elogia, gente que cuida, gente que faz bem. 
Lutam por uma semana cheia de gente que sonha acordado, e ri a toa. 
Lutam por uma vida dividida com gente que gosta daquilo que dá borboleta no estômago.
Por uma rotina feita de detalhes e acasos, daqueles que fazem toda diferença. Daqueles que fazem sorrir sem motivo.
Por um mundo onde felicidade seja contagiante, sorriso se pegue no ar e abraço-quentinho seja prescrição médica. 
Por um canto onde você faça somente aquilo que gosta, e não tenha medo de mudar, de assumir, de correr atrás. 
Aliás, onde a palavra “medo” seja excluída do dicionário, por falta de uso.
Por um mundo mais positivo.
E feliz. 

Obrigada, mães! ❤️

Vó, lembra quando eu era pequena e você fazia merenda pra hora do recreio? E colocava pão com carne assada, ovo cozinho e bananada, tudo isso pra 9h da manhã? 

E quando você juntava todos os netos, até os que moravam longe, e levava todo mundo (hoje sabemos o quão louco devia ser) pra colônia de férias em Nogueira? O lugar era simples, tinha bandejão e nós amávamos! Lembramos até hoje do quão divertido era acordar as seis da manhã (sozinhos!) pra ficar na fila do café da manhã, levar os pequenos pra andar a cavalo e participar de concursos de belezas.
Dindinha, lembra das vezes que viajávamos juntos? Hoje meu irmão me representa, mas era como se eu fosse uma segunda filha. 
Das milhares de vezes que passei o final de semana na sua casa vendo filmes da Disney (fita VHS!) com a Juju.
Da história da velinha ou da velhinha.
De quando íamos de mala e cuia passar o dia na sua casa, pro meu pai conseguir estudar em paz.
Do Dindinho que, mesmo negando o título, você quem me deu, e não podia ser melhor. 
Mãe, lembra da minha felicidade muda quando você me contou que eu teria (finalmente) um irmão? 
De todas as brigas, discussões e apelos por um quarto arrumado. 
Das roupas divididas. Do armário em conjunto. Das dietas sem glúten. 
Das idas a hospitais. Das dormidas em emergências. Das brigas com médicos. De correr o risco de pegar meningite e falar pro medico “não vou a lugar nenhum”.
Das trocas de e-mail. Da tradição que eu criei de te dar um presente sempre que ganhasse o primeiro salário no trabalho novo. Da nossa maneira peculiar de abraçar. Dos apelidos curiosos que nos chamamos. Das viagens juntas, e também das separadas. Das conversas por FaceTime. Das fotos seguidas da legenda “lembrei de você!”. 
De quando você me falou, pela primeira vez, que seria minha melhor amiga, pra sempre. 
Por todas essas lembranças e as infinitas que estão por vir, meu muito obrigada, às melhores mães que eu podia querer. 

Como você enxerga o copo?

“Promete que não usa mais bronzeador?”

“Mas porque? Não passo em você, só em mim!”
“Sim, mas daqui vinte anos quem vai ter que te levar nas sessões de quimioterapia sou eu!”
Pessoas que enxergam o copo meio vazio, devem ter achado uma baita declaração de horror. 
Pessoas que enxergam o copo meio cheio, perceberam que ele pretende estar com ela daqui vinte anos, e entenderam aquela declaração de amor singular. 
Já dizia o poeta “o modo como se fala, faz toda diferença”.
E eu peço licença pra complementar, porque o modo como se ouve  também. 
Viva aqueles que enxergam o copo meio cheio, o mundo tá “precisado” demais disso.

Vivemos de exemplo.

Tomando café da manhã hoje, vi uma notícia no jornal da madrugada (aquele antes das 8h) que me deixou estarrecida. 

Alunos de Paraisópolis (GO), destruíram a própria escola por um único motivo: querem a saída da nova diretora que, segundo eles, é muito rígida na disciplina. 

Fiquei imaginando como não era a última, pra eles acharem justo fazer um protesto que destrói o ambiente em que eles vivem e convivem. 

Mas a questão não é essa, espero que a diretora não saia, mas radicalize seus métodos. 

O que mais me chamou atenção é que, na hora que ouvi o vídeo do ocorrido, os alunos gritavam “fora diretora!”, e imediatamente fiz o link com “fora Dilma!” e os protestos que seguiram antes do gigante voltar a dormir. 

Que exemplo é esse que a minha geração está passando pra geração do meu irmão? 

Que tipo de cidadãos nós estamos criando? 

Que mentalidade é essa de: se não consigo o que eu quero pedindo, consigo quebrando? 

Ganha quem grita mais alto? Ou quem faz o maior estrago? 

Em seguida, uma notícia de um grupo de “professores” que invadiu à força um prédio público, arrombando portas e quebrando vidros, encapuzados, é claro. Porque tem orgulho e vergonha do que fazem, duas coisas incongruentes que andam juntas, como pode?

Você não é o único insatisfeito, professor, médico, engenheiro, advogado, gari, aluno.

Você pode ser o que for, só não pode esquecer que tem uma coisa em comum com todos os outros. 

Somos todos exemplos, no sentido mais humilde da palavra.

Você é exemplo pros que chegaram agora, pros que observam, pros que dependem, pros que se espelham. 

Você é exemplo do que você acredita, do que quer e pelo que você luta.

Você é exemplo e só com bons exemplos, conseguiremos um país feito de cidadãos.

Do jeito que tá, não dá. 

Marcella Vasconcellos. 🎈

Criançando.

A história do ônibus hoje foi divertida, aliás, como a maioria. Sim, me divirto andando (sentada) de ônibus. 

Uma mãe, e uma criança de uns quatro anos, no máximo. 
Ela de uniforme e um cocar de índio na cabeça, acredito que estivesse fantasiada assim desde o Dia do Indio, criança tem dessas coisas. 
Ela contava pra mãe alguma coisa que tinha acontecido na escola, sobre alguém ter dado um beliscão nela – peguei a conversa no meio. 
Eis que uma moça desprovida de beleza natural passa pela roleta e senta do lado das duas – e eu no banco de trás. 
A moça começou a fazer caretas e palhaçadas, mas a criança não sorria. A moça tentava de novo, e mais uma vez. 
Nada.
Quando a mãe fala: “olha filha, a moça bonita tá falando com você, conta pra ela o que é isso na sua cabeça, conta”.
E a criança responde, simples e objetiva: “ela não é bonita, mamãe”.
A arte de ser doce e dar uma porrada, na mesma frase, as crianças dominam. 
E eu ri (muito) alto do banco de trás, mas poderia ter sido uma criança, de tão inocente e espontânea que foi minha gargalhada. 
Marcella Vasconcellos. 🎈

Escorpião.

Sentou uma menina do meu lado no ônibus e, falando no telefone, ela comentou: “sou muito azarada, sempre entro no ônibus quando meu signo acabou de passar, e pior, nunca dá tempo de ver a próxima rodada”.

Quem anda de ônibus no Rio de Janeiro, sabe do que eu to falando. Me identifiquei, comigo acontece o mesmo.
E ai lembrei de ontem, estava no trabalho e recebi o áudio de uma amiga, num grupo de WhatsApp. Primeiro pensamento: “lá vem besteira”. Mas quando ouvi, percebi que a menina do meu lado não é azarada, nem eu. 
Minha amiga contava, com a voz trêmula, que tinha acabado de presenciar um assalto (até aí, estamos ambientados) e pra finalizar, ainda atiraram na mulher, dentro do carro, sem ela ter reagido (aquela falsa noção de segurança, afinal, um absurdo terem atirado se ela não reagiu. Assalto beleza, tudo dentro dos conformes). 
Existem vários nomes pra isso, mas tenho certeza que não somos azaradas.
Lembrei de ontem, enquanto discutia sobre redução ou não da maioridade penal, e o assunto migrou pra precariedade das instituições do Estado, e das crianças que dele dependem pra serem qualquer coisa além de marginais. 
Lembrei da entrada do hospital público que fica no meu caminho, e da cara das pessoas deitadas na porta, esperando atendimento por horas.
Lembrei do pivete que quase conseguiu arrancar meu cordão ontem, em plena luz do dia, no centro da cidade, e só foi mal sucedido por uma questão de mira. 
“Precisa ficar atenta” – eu ouvi – já não adianta, não dá pra prestar atenção em dez pivetes ao mesmo tempo.
Lembrei da minha família, da minha casa, dos meus objetivos. 
Lembrei que tenho mil planos, e pretendo conquistar todos eles, porque condições não faltam. 
E enquanto eu escrevia, perdi mais uma vez meu signo na televisão do ônibus, mas de que importa isso? 
No final, é só questão de acreditar ou não, no que quer que seja, e agradecer. 

Egoísmo coletivo. 

Sentada no primeiro banco depois do motorista, tô vendo uma mulher gesticulando loucamente com as mãos, falando com o motorista que, por sua vez, estava calmo feito um monge.

A mulher não parava, e todo mundo prestava atenção, tive que tirar o fone pra participar também. Meu pai sempre disse que devemos nos manter informados sobre o que acontece no mundo.

“Ô motorista, o senhor não pode andar mais rápido não? Eu to muito atrasada moço, pelo amor de Deus, que lerdeza!”

E o motorista quieto, sorrindo. 

“Mooooço, faz favor, pra quê parar em todos os pontos?! Olhaí, esse só tem uma pessoa, ela pega o próximo!”

E o motorista rindo. 

“Minha nossa senhora dos atrasados, é minha primeira semana no trabalho, moço, me ajuda!”

E o motorista finalmente respondeu: 
“Minha senhora, com todo respeito, eu amarrei a senhora na cama? Aquele rapaz ali no ponto, ele te prendeu em casa e foi isso que te atrasou? Essa moça aqui, ela demorou a servir seu café, por isso a senhora tá atrasada?”

A mulher ficou muda, e um pouco sem graça. 

“Pois é, minha senhora, n-i-n-g-u-é-m aqui tem culpa do seu atraso, e t-o-d-o mundo tem coisa pra fazer. Então se a senhora não quer pensar no coletivo, melhor não pegar um coletivo, taxi existe pra isso.”

Sorrindo o motorista estava, sem graça a mulher ficou. 

Viva o egoísmo! 
E os motoristas que me rendem ótimas histórias! 

Marcella Vasconcellos. 🎈

Bem vindos ao hell- de-janeiro.

De um lado da calçada, uma moto caída no chão, ambulância, plástico preto, polícia e televisão. Do outro, a vitrine de uma joalheria estilhaçada, e uma senhora morta na calçada. 17:32, quinta feira.

Dentro no ônibus, uma menina fala ao telefone, quando um senhor chama sua atenção: “cuidado minha filha, eles metem a mão pela janela pra roubar o que tiver disponível”. 
Os outros passageiros concordaram, e o senhor continuou “é por isso que eu sou a favor da redução da maioridade penal e, mais ainda, da pena de morte. Já fui assaltado muitas vezes, e ainda querem que eu tenha pena e chame os direitos humanos? Minha vontade é prender a mão dele na janela e mandar o motorista arrancar a toda velocidade”, e os outros concordaram. 
16:50, quinta feira.
Ontem me perguntaram porque é que ultimamente só tenho escrito sobre desgraças e acontecimentos tristes. 
Eu juro que tento (e meu irmão muito me ajuda), mas é difícil falar sobre coisas divertidas, quando voltar pra casa significa muito mais do que um simples “fui trabalhar, mas já voltei”. Significa sorte, pela qual devemos ser muito gratos. 

As pessoas estão cada vez mais entendendo nada, confundindo tudo, e nos levando de volta à um estado de barbarie, moderna e disfarçada. 
Sejam bem vindos.
Marcella Vasconcellos. 🎈

Pra alguém. 

Sexta feira, 18:45, Avenida Presidente Vargas, Central do Brasil. 

Uma senhora, devia ter seus 70 anos, parada no ponto de ônibus com uma mochila e uma mala de carrinho. 
Eu, da janela do ônibus, me pego boquiaberta com a cena de um garoto de, não mais que 15 anos, puxando a senhora pela mochila, em direção à rua. 
Ele queria a mochila, ela, nem se quisesse, conseguiria entregar pra ele daquele jeito. 
Ele puxava como se a vida dele dependesse disso. De repente, depende, mas sinceramente, diante daquele absurdo, pouco me importa.
Ela caída no chão, gritava por ajuda, ele, em cima dela, continuava na tentativa de pegar a mochila. 
O motorista do meu ônibus, quando ouviu os gritos, saiu correndo e foi em direção a eles, que já estavam no meio da rua.
Quando o garoto percebeu que vinha um homem, maior e mais forte que ele, na direção deles, puxou com mais pressa a mochila, sem sucesso. 
O motorista chegou perto e, ao ameaçar bater no garoto, este saiu correndo, deixando a senhora no meio da pista, levou a moral, o orgulho é a dignidade, mas não conseguiu a mochila. 
A senhora estava com o rosto todo ralado, os óculos espatifados e chorando. O motorista a ajudou a levantar, outras pessoas vieram e um cara saiu correndo atrás do garoto. 
Do outro lado da rua, dois carros da PM, com quatro policiais do lado de fora, conversando. 
Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, pra alguém.